88 - Hyena (Hyena, 2014): drama policial sufocante que imprime uma atmosfera de absurda tensão desde suas cenas iniciais. A trama homenageia explicitamente o visual cru e sufocante dos filmes de Michael Mann (Fogo Contra Fogo, Miami Vice) e Nicholas Winding Refn (Drive, Só Deus Perdoa), inclusive com o abuso da iluminação em neon. Ao contrário desses cineastas, porém, o diretor Gerard Johnson não consegue imprimir ao roteiro um arco satisfatório. Uma pena, já que protagonista interpretado com muita intensidade por Peter Ferdinando merecia uma trajetória que não se limitasse a copiar descaradamente a premissa de Vício Frenético, tanto o original quanto a refilmagem. O final inconclusivo, apesar de audacioso, soa mais como um anti-clímax incômodo do que uma sacada reflexiva e dá a sensação de tempo desperdiçado, o que é uma pena. Nota 4,5
* 89 - Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015, em IMAX 3D): aos recém completados 70 anos e três décadas depois de dirigir Mad Max - Além da Cúpula do Trovão, o cineasta George Miller retoma uma franquia querida para os cinéfilos oitentistas e, de lambuja, dá uma aula magna de cinema para as novas gerações, humilhando os diretores modernos ao demonstrar didaticamente como é que se filma um arrasa-quarteirão de raiz. Acertadamente surtada e enlouquecida, a quarta aventura do personagem-título faz jus a tanto tempo de espera e consegue a proeza de não frustrar as expectativas altíssimas que os impecáveis trailers haviam antecipado. Mad Max: Estrada da Fúria é uma produção alienígena no cenário atual das superproduções. Isto porque a opção de Miller em reduzir ao mínimo os efeitos digitais e investir o orçamento todo em cenas de ação rodadas com veículos e dublês se arrebentando na tela o diferencia de todo e qualquer blockbuster visto nas duas últimas décadas. É um retorno ao cinema-pipoca de antigamente e isso escapa da tela e explode no rosto do público (principalmente se visto na tela gigante e com o som ensurdecedor da sala IMAX, o modo perfeito de se desfrutar o filme por completo). O espetáculo visual e sensorial comandado por George Miller é daquela estirpe que já nasce clássica. É um filme para ser visto e revisto através do tempo, um tour-de-force de cenas grandiosas magnificamente orquestrado pelo diretor australiano. Escrito como uma longa e praticamente ininterrupta cena de perseguição, o roteiro, povoado por silêncios e econômico nos diálogos, consegue transcender o gênero da ação descerebrada ao incluir furtivamente questões pertinentes e contemporâneas (a degradação do ecossistema sendo a mais óbvia, mas seguida de perto pela crítica ao fanatismo religioso e o papel da mulher na sociedade moderna). E mesmo que Tom Hardy talvez não consiga corresponder devidamente ao personagem imortalizado por Mel Gibson, a opção de tornar Max praticamente um coadjuvante na jornada da excepcional personagem de Charlize Theron (ótima em cena) mais do que compensa qualquer fragilidade na comparação com o ator anterior. Fotografado por John Seale (Sociedade dos Poetas Mortos) com uma paleta de cores que alterna entre a luminosidade quente das cenas rodadas durante o dia e uma aura azulada que remete a sonhos durante as sequências noturnas, o longa é visualmente deslumbrante. A frase que acompanha os cartazes promocionais resume bem a experiência de assistir ao filme: "What a lovely day". Nota 9
90 - Life After Beth (Life After Beth, 2014): comédia independente dirigida pelo roteirista do ótimo Huckabees: A Vida É Uma Comédia e que parece enterrar logo na estreia a carreira do escritor como cineasta. Nada funciona nessa pretensa comédia de humor negro que nunca se decide entre abraçar o gênero do terror cômico ou da comédia pastelão. O ótimo elenco parece constrangido em cena pela inaptidão do diretor em encenar as gags presentes no roteiro pavoroso. Nota 2
91 - O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015): é inegável que os irmãos Wachowski merecem aplausos por investirem pesado em uma superprodução original, que não é continuação, refilmagem e muito menos baseada em qualquer obra do imaginário pop. É uma pena, porém, que essa ópera espacial resulte tão equivocada. Com um roteiro desnecessariamente complicado que, quando desvendado, escancara a idiotice da ideia central, O Destino de Júpiter é um erro grotesco que figura como o ponto mais baixo do currículo dos cineastas (e lembrem-se que eles foram responsáveis por Matrix: Revolutions e Speed Racer). Requentando sem qualquer critério ideias já vistas inclusive em seus trabalhos anteriores (a colheita de humanos remete imediatamente à trilogia Matrix), o filme soa como um amontoado de referências que nunca parece homogênea. O protagonista Channing Tatum parece visivelmente desconfortável ao defender um personagem misto de humano com cachorro (!!!) que participa das cenas de ação com um híbrido de skate e tênis voador (!!!!!!!!), mas nada pode ser mais vergonhoso que a atuação hilariante de Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo) como o vilão do longa, uma interpretação tão bizarra que é capaz do ator ser agraciado, no mesmo ano, com o Oscar e a Framboesa de Ouro. Pelo menos os Wachowski, aqui e ali, ainda conseguem compor um visual bonito (a cena do casamento é plasticamente impecável) e uma ou outra cena de ação decente. Muito pouco para o que prometia ser. Nota 4
92 - Musarañas (Musarañas, 2014): suspense espanhol produzido por Álex de la Iglesia (O Dia da Besta) que não guarda nada em comum com sua divertida filmografia. Óbvia tentativa de emular o ritmo e o climão dos filmes de Hitchcock, é uma produção que fracassa ao revelar sua vilã cedo demais e não encontrar em sua protagonista uma personagem pela qual se torça facilmente. A meia-hora final abandona o tom classudo e descamba para um gore que parece totalmente deslocado do que até ali. Nota 4
93 - Open Grave (Open Grave, 2013): desde a primeira cena, a impressão é que esse suspense vai cair na vala comum dos finais previsíveis. A medida que a trama avança, por outro lado, parece que o roteiro se encaminha para um final inconclusivo e preguiçoso, deixando a trajetória dos personagens em aberto. Surpreendentemente, porém, o longa consegue juntar todas as peças lançadas e entregar um clímax decente e que faz sentido. As atuações são medianas e as situações poderiam ser muito melhor aproveitadas, mas é um filme que remete ao clima de paranoia e incertezas do seriado Lost e, por isso mesmo, consegue entreter. Nota 6,5
94 - O Mensageiro (Kill The Messenger, 2014): baseado numa história real, é uma produção que é favorecida por sua trama encontrar sustentação em fatos que realmente aconteceram, o que a aproxima dos thrillers de espionagem que Hollywood costumava produzir nos anos 70. Jeremy Renner entrega uma ótima performance em um filme que, se não decola como deveria em sua crítica ao governo americano (há outros tantos exemplares bem mais afiados), pelo menos prende a atenção durante a sua metragem. Nota 6,5
95 - A Seita Misteriosa (Sound Of My Voice, 2011): fascinante híbrido entre drama e ficção científica que, rodado por meia dúzia de trocados, consegue equilibrar de forma exemplar o crescente clima de mistério com a crítica àcida às religiões formadas por ocasião. O seu final ambíguo e as inúmeras perguntas deixadas sem resposta só fortalecem o seu real cerne: a discussão sobre fé x pragmatismo. A atriz e corroteirista Brit Marling dá vida aqui a uma personagem complexa e realmente hipnotizante. E há uma cena que já nasceu clássica ao som de Dreams, dos Cranberries. Nota 8,5
96 - Projeto Almanaque (Project Almanac, 2014): eu tenho um fraco por filmes que envolvem viagens no tempo e talvez por isso tenha curtido essa produção de Michael Bay que, sim, consegue encontrar lugar para explosões mesmo numa trama rodada como se fosse uma filmagem realizada entre amigos. A opção pelo subgênero do "found footage" (filmagens encontradas) é discutível, mesmo porque transforma o filme, à primeira vista, em uma cópia barata do muito superior Poder Sem Limites (Chronicle), mas o roteiro é eficaz ao envolver o espectador durante os seus parcos minutos de duração. O paradoxo da viagem no tempo é, para variar, mal-tratado pelo roteiro, que equivocadamente se atém a tramas adolescentes demais a partir de seu terceiro ato que acabam por eclipsar a homenagem que presta a De Volta Para O Futuro (desde o seu título, que presta tributo à segunda parte da trilogia). Diverte, mas não empolga. Nota 6
97 - Hot Girls Wanted (Hot Girls Wanted, 2015): produzido por Rashida Jones (filha de Quincy e atriz de Parks and Recreation), ilumina um cenário que poucas vezes foi abordado pelo cinema (o dia-a-dia das atrizes especializadas em pornô amador) e, mais do que servir como crônica sobre as agruras da profissão, revela um cenário chocante sobre a mentalidade masculina contemporânea (40% das buscas por pornografia na internet, ensina o filme, envolve abuso de mulheres). Assustador enquanto retrato da sociedade moderna, é uma produção que merece (e muito) ser descoberta. Nota 8
98 - Armadilha Para Turistas (Tourist Trap, 1979): visualmente datado, esse filme de terror prova que mereceu virar objeto de culto ao longo dos anos porque sabe equacionar de maneira muito eficiente os clichês do gênero com uma atmosfera realmente perturbadora. A trilha sonora do mestre Pino Donaggio (Carrie, A Estranha, Inverno de Sangue em Veneza, Vestida Para Matar) é clássica e Tanya Roberts (007 - Na Mira dos Assassinos, Sheena - A Rainha das Selvas) periga ser a scream queen mais gostosa de todos os tempos. Mesmo pecando na explicação meia-boca para a motivação de seu psicopata, a cena final é primorosa. Nota 7,5
99 - We Are Still Here (We Are Still Here, 2015): muito boa homenagem aos filmes de terror dos anos 70, a produção se aproxima no clima criado do excelente A Casa do Diabo, de 2009, mas com um terceiro ato que modifica bruscamente o desenrolar da trama e abraça descaradamente um gore que faria Sam Raimi pular de felicidade. As divas do gênero Barbara Crampton (Re-Animator) e Lisa Marie (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) dão as caras para abrilhantar o ótimo debut do produtor Ted Geoghegan atrás das câmeras. Nota 7,5
100 - México Bárbaro (México Bárbaro, 2014): irregular como qualquer antologia, ao menos essa coletânea de curtas que se baseiam em lendas e contos mexicanos apresenta uma média de qualidade adequada que não deixa o filme cair de vez na chatice (apesar do péssimo segmento "Drena" se esforçar para afugentar o público). Serve como um bom panorama dos novos diretores mexicanos. Nota 7
101 - A Casa do Fim dos Tempos (La Casa del Fin de los Tiempos, 2013): terror venezuelano cheio de clima e com atuações superlativas (toda a parte envolvendo o elenco de crianças é exemplar), mas que, ao revelar o segredo de sua trama, acaba por afundar a si próprio em um paradoxo que não faz o menor sentido se pensado por mais do que 30 segundos depois de seu término. Uma pena, pois a perfumaria ao redor do texto é bem decente. Nota 5,5
102 - Vocês Ainda Não Viram Nada! (Vous N´avez Encore Rien Vu, 2012): penúltimo filme do mestre Alain Resnais (Hiroshima Meu Amor, O Ano Passado em Marienbad) que parece uma despedida prematura do cineasta (ele ainda viria a dirigir mais um filme, Amar, Beber e Cantar, em 2014). E é um trabalho superlativo e vigoroso, em que Resnais demonstra que, aos quase noventa anos, conseguia conceber um longa que, ao mesmo tempo em que escancara a sua perspectiva em relação à morte, ainda presta tributo ao teatro e ao cinema. Com um design de produção primoroso e um elenco irrepreensível, é um testamento e tanto. Mesmo quando periga a soar cansativo, lá pela uma hora de projeção, Resnais tira da cartola um artifício cênico ou arranca de seus atores uma fala específica para cativar o público até o final. Um belo trabalho. Nota 8
103 - Ex Machina: Instinto Artificial (Ex Machina, 2015): não poderia ser melhor a estreia na direção de Alex Garland (roteirista de Extermínio e Dredd), que consegue não só amplificar a temática sócio-futurista de seus trabalhos anteriores, mas focar em assuntos ainda mais fascinantes (e atuais). Tendo como base a relação entre homem e máquina, Garland filma (na verdade, pinta, tamanha é a plasticidade das imagens concebidas pelo agora cineasta) seu roteiro como um intrincado jogo de xadrez entre criador(es) e criatura(s), em que nada é o que parece ser a primeira vista e cujo desenrolar revela uma pertinente discussão sobre a ética e a moralidade que antecedem a criação tanto científica quanto artística. A direção de arte beira a perfeição, abusando de detalhes quase imperceptíveis a primeira vista em seu (praticamente) único cenário (a mansão de Oscar Isaac, de Inside Llewyn Davis, ótimo em cena). Todos os diálogos travados entre Domhnall Gleeson (Questão de Tempo) e Alicia Vikander (O Amante da Rainha) são impecáveis e cheios de significados. Uma ficção científica feita por adultos e com foco em gente grande. Filmaço. Nota 9
104 - Invasores: Nenhum Sistema Está à Salvo (Who Am I - Kein System ist sicher, 2014): thriller alemão cuja edição frenética lembra muito Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, com soluções visuais bacanas que remetem ainda a Corra, Lola, Corra em sua absorção orgânica pela trama acelerada. O enredo, que envolve crimes cibernéticos, é atual e bem conduzido, mas a desnecessária virada da trama nos últimos dez minutos de projeção não apenas ofende a inteligência do espectador, mas também tira muitos pontos do que poderia resultar em um trabalho bem acima da média. Nota 7
105 - Raze (Raze, 2013): essa mistura de influências de outras produções pega emprestado o clima claustrofóbico e de mistério de Cubo (1997), mas acaba por se revelar mais um "torture porn" na linha do que Eli Roth comandou na franquia O Albergue. Apesar do razoável elenco reunido (a ex-dublê de Uma Thurmann, Zoë Bell, é uma boa protagonista, enquanto as pontas de Rachel Nichols e Rosario Dawson são inesperadas e divertidas), a violência gratuita incomoda muito e o desfecho dá contribui para a sensação de tempo perdido. Os vilôes interpretados por Doug Jones e Sherilyn Fenn são caricatos e mais irritam do que causam medo. Nota 4
106 - The Living (The Living, 2014): uma trama que remete ao clima das produções dos irmãos Coen, mas com bem menos talento envolvido por trás das câmeras. Uma tragédia anunciada cujo ritmo é encenado de forma adequadamente lenta até o clímax que, se não chega a ser surpreendente, pelo menos é bem conduzido. Nota 6,5
107 - Spring Breakers: Garotas Perigosas (Spring Breakers, 2012): roteirista de Kids, o também diretor Harmony Korine sempre pautou sua carreira pela realização de produções independentes com um tom próprio que o distanciava do cinema comercial. Essa produção é de longe a mais pop já realizada pelo cineasta, mas é inegável o conflito de personalidade impresso no produto final. Se por um lado é perceptível a pegada autoral de Korine na montagem (a decupagem das cenas lembra o cinema de Terrence Malick), por outro há um incômodo sexismo na abordagem da narrativa, com ênfase na óbvia (e insistente) objetificação sexual do diretor ao enquadrar os corpos femininos perfeitos de seu jovem elenco, o que beira o pornográfico. James Franco surpreende ao criar um personagem muito distante de suas atuações costumeiras, um traficante cuja imprevisibilidade reativa mescla com originalidade violência e fragilidade. Diverte razoavelmente, mas deixa um gosto um pouco amargo na boca, como se acabássemos de assistir ao videoclipe machista de rap music. Nota 5,5
108 - Mais Um Verão Americano (Wet Hot American Summer, 2001): conta com um elenco que hoje em dia é formado por estrelas do cinema e da tevê (Bradley Cooper, Paul Rudd, Amy Poehler, Janeane Garofalo, Elizabeth Banks) e cujo roteiro pretende homenagear e parodiar os filmes ambientados em acampamentos estudantis dos anos 80. Apesar da boa intenção da premissa, é um filme que tenta tirar sarro de produções ruins, mas resulta pior ainda do que os filmes parodiados. Terrivelmente episódico e sem graça, com gags sem timing cômico algum e um amontoado de atores que parece visivelmente constrangido em cena (ou pelo menos deveriam envergonhar-se), é uma produção tão ruim que chega a ser inconcebível (mas sintomático) que tenha virado cult movie nos EUA (a Netflix inclusive está produzindo um seriado baseado no longa). Um lixo cinematográfico que merece permanecer desconhecido do público cinéfilo. Nota 1
* 109 - Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015): em primeiro lugar, não dá para comparar com o primeiro Parque dos Dinossauros, que Spielberg transformou em uma das melhores aventuras que já conduziu em sua carreira repleta de clássicos do entretenimento. De qualquer forma, Jurassic World se sobressai entre as sequências do filme original, com o resgate do senso de deslumbramento ausente nos filmes 2 e 3 e que aqui é muito bem empregado (até a trilha de Michael Giacchino contribui para isso, reverenciando a todo momento o clássico tema de John Williams). A ideia de ambientar a trama em um parque temático que remete claramente àqueles sediados em Orlando é sensacional e contribui para a orquestração das inúmeras (e muito eficientes) cenas de ação comandadas por Colin Trevorrow, que até então tinha em seu currículo apenas uma comédia independente, a ótima Sem Segurança Nenhuma. A premissa também é muito adequada, envolvendo interesses corporativos que refletem a economia e a política externa americana atuais, ao mesmo tempo em que aborda cinicamente a própria mecânica por trás das sequências cinematográficas produzidas de forma industrial pela Hollywood contemporânea. Mas nem tudo são flores. Os personagens principais são caricaturais e mal escalados (Chris Pratt simplesmente não funciona adequadamente na pele de um sujeito desprovido de humor, justamente o ponto forte do ator), ao passo que o roteiro insiste irritantemente em diálogos expositivos e aborda a protagonista Bryce Dallas Howard sob um viés que, convenhamos, é o retrato fiel do sexismo e do machismo de nossa sociedade (a workaholic sem emoção que encontra redenção ao descobrir em si o instinto materno, sério mesmo??? em pleno século XXI???). Porém, o senso de aventura a moda antiga que o longa impregna em cada fotograma compensa os seus erros. Os últimos 15 minutos de projeção são um exemplo de resgate das boas produções de entretenimento de antigamente. Um ótimo programa familiar e um autêntico "filme de monstro" conduzido com mão firme. Que bom que o longa tenha feito sucesso memorável em sua estreia (é a maior bilheteria de abertura da história), o que vai contribuir para que a indústria cinematográfica invista em mais filmes com a mesma pegada. Vale muito a pena. Nota 8
110 - Histórias Mínimas (Historias Mínimas, 2002): o excelente diretor Carlos Sorin (do ótimo O Cachorro) faz aqui talvez o seu trabalho mais emotivo e particular. Essa miscelânea de historinhas ambientadas no Sul gelado e desértico da Argentina dá luz e voz a personagens muitas vezes marginalizados e fadados a uma posição periférica nas narrativas do cinemão convencional. Ao abraçar com carinho essas figuras tragicômicas, Sorin desenha um panorama interessantíssimo sobre aquela parcela da população que ainda não foi alcançada pelos avanços da vida moderna. Terno, engraçado e triste na mesma proporção, é uma pequena obra-prima que extrai de seu elenco de desconhecidos (e em alguns casos, amadores) atores sentimentos universais tão bem registrados que a vontade que fica é de segui-los para além do recorte de tempo abrangido pelo roteiro. Imperdível. Nota 9
111 - Shuffle (Shuffle, 2011): a ideia de apresentar uma historia em que o personagem se vê preso em sua própria vida, montada de forma aleatória como em 21 Gramas, é muito promissora. Entretanto, a canastrice do elenco e a fragilidade do roteiro jogam a originalidade da premissa no lixo. Para piorar, o desfecho cristão, piegas e metafísico do roteiro extermina qualquer esperança de vida inteligente por trás da produção. Nota 3
112 - Os Brutamontes (Goon, 2011): uma comédia que usa e abusa dos clichês dos filmes de esporte para contar uma história (muito) livremente inspirada em fatos reais que diverte pela gaiatice com que o elenco abraça a produção, subvertendo os lugares-comuns e entregando um produto final que consegue agradar mesmo aqueles que não são fãs do subgênero em que se enquadra. O fato de Sean William Scott (o eterno Stiffler da franquia American Pie) conseguir escapar da caricatura que o tornou famoso é excencial para o filme (o seu protagonista transborda empatia), assim como a presença da adorável Alison Pill (Scott Pilgrim Contra o Mundo), que entrega um interesse romântico muito diferente das figuras femininas padronizadas pelas superproduções de Hollywood. Além disso, ao antagonista vivido por Liev Schreiber são reservadas bem mais camadas do que o habitual. Ironicamente, o calcanhar de Aquiles do filme é o coadjuvante irritante interpretado por Jay Baruchel, justamente o corroteirista do longa. Uma boa diversão. Nota 7,5
113 - Raça das Trevas (Nightbreed - The Director´s Cut, 1990): a versão do diretor para o trash Raça das Trevas prometia, segundo prometido por seu autor-diretor Clive Barker, resgatar o que a montagem final do estúdio tinha estragado. Porém, o fracasso de bilheteria e crítica do longa é mais uma vez justificado aqui. O roteiro é um amontoado de situações desfocadas que confunde-se ao tentar costurar dentro de um mesmo colchão a pretensão de criar um universo próprio e os clichês mais absurdos dos filmes de serial killer. A história parece truncada, com ações que atropelam reações e uma inaptidão notável em concatenar todas as ideias presentes na trama. O agravante mais evidente é a presença de David Cronenberg, diretor de A Mosca e Cosmópolis, como o vilão, talvez uma das atuações mais canastras do Cinema moderno. O lado bom é que todo o design de produção que envolve a "raça das trevas" do título é de cair o queixo, um trabalho irrepreensível de maquiagem e cenografia que se iguala a clássicos do gênero terror e provavelmente serviu de influência a cineastas e produções melhores nos anos seguintes (a sequência da descida aos subterrâneos é primorosa em sua inventividade). É esse visual que salva o longa de resultar em um enlatado meramente ruim. Nota 4,5
114 - Transcendence: A Revolução (Transcendence, 2014): é difícil apontar onde exatamente começa a sucessão de erros grotescos por trás dessa superprodução de estreia do diretor de fotografia dos filmes de Cristopher Nolan, Wally Pfister. Desde a escalação equivocada do grande elenco (Johnny Depp, Morgan Freeman, Paul Bettany) até a identidade visual genérica, tudo dá errado em uma trama que promete uma ficção científica inteligente, mas entrega um pastiche do gênero que é chato até dizer chega. O problema principal talvez seja a dificuldade em justificar os atos dos "mocinhos" em contraposição aos do "vilão": o filme em momento algum consegue demarcar devidamente as personalidades de ambos os lados, o que acarreta o imediato desinteresse do público e sabota o desfecho supostamente surpreendente. Nota 2
115 - Uma Viagem Excêntrica (The Trip, 2010): adorável reunião do ator Steve Coogan com o diretor Michael Winterbottom, que o dirigiu no ótimo A Festa Nunca Termina, é uma sucessão de improvisações cômicas durante uma tour gastronômica pelo interior da Inglaterra. Originalmente exibido em capítulos na televisão inglesa, é um trabalho quase inteiramente rodado na base do improviso e que revela a versatilidade de Coogan e de seu divertidíssimo parceiro de elenco, Rob Brydon. Um filme que dá fome e faz rir na mesma medida. Nota 8
116 - Mistério Na Vila (M
* 152 - Férias Frustradas (Vacation, 2015): híbrido de continuação, remake e reboot, essa retomada das aventuras da família Griswold foi injustamente massacrada pela crítica e ignorada pelo público americano. Não que o longa não tenha a sua parcela de culpa. O humor às vezes busca o choque e o ultraje onde os filmes originais conseguiam imprimir leveza mesmo quando as situações eram tragicômicas (o novo filme soa grosseiro muito além do que deveria em algumas cenas), o que é um reflexo da comédia moderna feita por Hollywood. Mesmo assim, o roteiro aposta na maior parte do tempo no mesmo tom das piadas conhecidas pelos Férias Frustradas originais, pois a ideia geral aqui é ver o protagonista Rusty Griswold (Ed Helms, de Se Beber... Não Case, em seu habitat natural) se ferrar até dizer chega enquanto tenta desesperadamente tornar a viagem até Walley World um programa familiar memorável para sua esposa (uma ótima Christina Appelgate) e seus filhos. Conta com participações especiais de Leslie Mann, Chris Hemsworth (que quase rouba a cena como o cunhado republicano superdotado), Colin Hanks e um certo ator do seriado The Walking Dead. Chevy Chase e Beverly D´Angelo também dão as caras reprisando seus papeis de patriarcas do clã Griswold em uma ponta muito divertida. Muito além de seus equívocos. o novo Férias Frustradas, se carece de um roteiro mais inteligente, pelo menos cumpre o que a maioria das comédias modernas não consegue: arranca gargalhadas genuínas e em profusão, comprovando o que nós, veteranos, já sabemos há décadas: quanto mais um Griswold se dá mal, mais risadas são arrancadas do público. Nota 8
153 - Mum And Dad (Mum And Dad, 2008): suspense britânico que conta com dois dos melhores psicopatas vistos recentemente no cinema (Perry Benson e Dido Miles fazem de seus "papai" e "mamãe" figuras realmente assustadoras em um trabalho de interpretação excelente). O clima é claustrofóbico e as cenas chocantes funcionam que é uma maravilha, por isso o final apressado soa um tanto decepcionante. Nota 7
* 154 - O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E., 2015): baseado em um seriado dos anos 60, o novo filme do cineasta Guy Ritchie (Sherlock Holmes, Snatch) esbanja estilo e pirotecnia visual, marcas registradas do diretor. A ambientação sessentista é o principal atributo da produção, que conta com figurinos e locações lindíssimas, além de uma trilha sonora precisa, que em muito contribui para que o longa soe melhor do que é na verdade. O problema aqui é que o filme parece sofrer de bipolaridade crônica: enquanto busca um resgate aparentemente sério ao reviver o clima da Guerra Fria, seus personagens parecem saídos de uma comédia de costumes. É essa indecisão entre abraçar a comicidade (a dupla de protagonistas é muito azeitada e arranca facilmente risadas do público em várias sequências) ou o filme de espionagem clássico que sabota a produção, que conta com uma trama muito frágil, quase banal (a vilã do filme é praticamente escanteada pelo roteiro). No final das contas, é um filme que não chega a aborrecer, mas carece de cenas de ação para torná-lo algo do naipe dos melhores exemplares do gênero (o desfecho é especialmente anticlimático) e, por outro lado, não abraça a galhofa de seus personagens como deveria. Nota 4,5
155 - Trash: A Esperança Vem do Lixo (Trash, 2014): dirigido pelo inglês Stephen Daldry (Billy Elliot, As Horas, O Leitor), essa produção rodada no Rio de Janeiro é eficaz ao tornar a jornada de seus três protagonistas mirins uma aventura que realmente atrai a empatia da plateia. Porém, é inegável o viés estrangeiro ao filmar nossas paisagens e sociedade (a favela composta de palafitas onde moram os personagens principais parece mais saída de uma adaptação da Terra do Nunca de Peter Pan). Tudo parece saído de um manual para inglês ver sobre o Brasil, principalmente os mal-aproveitados personagens de Martin Sheen e Rooney Mara, ambos esforçados em cena. O lado bom é que tanto Wagner Moura (em uma rápida, porém marcante, participação) e Selton Mello acertam o tom como o herói e o vilão principais. Flui muito bem até o seu equivocado epílogo que, ao tentar estabelecer um paralelo entre a narrativa e os protestos de junho de 2013, acaba naufragando a sua mensagem. Sem contar que o desfecho é dos mais implausíveis. Nota 4,5
156 - Terremoto: A Falha de San Andreas (San Andreas, 2015): o subgênero dos "disaster movies" (ou "filmes-catástrofe") tem como um de seus mais importantes elementos a capacidade da produção em tornar a destruição vista na tela crível e/ou impactante. San Andreas e seus efeitos digitais ao menos cumprem com méritos esse requisito, promovendo o espetáculo visual esperado de um filme cujas cenas de ação são múltiplas e muito eficazes (com exceção do acidente de carro que abre o longa, uma sequência cuja artificialidade de seu CGI destoa do restante da produção). O problema aqui é que os filmes-catástrofe realmente memoráveis têm como principal gatilho narrativo os personagens humanos cujas vidas em perigo forçam naturalmente a empatia do público (vide Inferno Na Torre, O Destino do Poseidon, Titanic). E San Andreas derrapa vergonhosamente nesse quesito. É surpreendente que um roteirista experiente como Carlton Cuse (dos seriados Lost e Bates Motel) entregue um texto tão chulo, cujo conflito familiar parece saído da prancheta de um estudante de primeiro semestre de Cinema. A trama é previsível e irritante em seus lugares-comuns, ao passo que a classificação PG-13, além de eliminar qualquer cena violenta, literalmente apaga do filme quaisquer consequências chocantes da tragédia vista na tela (os figurantes mortos no desastre nunca deixam de ser o amontoado de pixels feito em computador reservado a eles pelo roteiro, o que tira do longa qualquer senso de perigo ou ameaça reais). Desastre mesmo são esses equívocos. Nota 4
157 - Noite do Terror (Black Christmas, 1974): inventivo slasher movie da primeira metade da década de 70, quando o gênero ainda engatinhava nas telas. É esse ineditismo que permeava as produções de assassinos seriais naquela época que contribui para que o diretor Bob Clark (Uma História de Natal, Porky´s) não fique atrelado aos cacoetes que posteriormente se tornaram obrigatórios aos longas que o seguiram. Mescla comédia e suspense em doses bem azeitadas e possui um elenco de figurinhas carimbadas dos 70´s e 80`s: Margot Kidder (Superman - O Filme), Olivia Hussey (Romeu e Julieta), Keir Dullea (2001: Uma Odisséia No Espaço), John Saxon (A Hora do Pesadelo), Art Hindle (Os Invasores de Corpos) e por aí vai. Bem bom. Nota 7
158 - Olho Nu (2014): documentário biográfico sobre Ney Matogrosso que ousa desvencilhar-se das armadilhas da hagiografia de celebridades e opta por uma narrativa poética cujo produto final parece saído mais de um ensaio cinematográfico e nunca lembra o burocrático caminho dos registros que investem em cabeças falantes. Ao mesmo tempo revelador e instigante, não esgota a persona do biografado e consegue prender a atenção por sua atmosfera de sonho. Um belo trabalho de Joel Pizzini. Nota 8
159 - Os Selvagens (Wilderness, 2006): suspense de sobrevivência que tem clima adequado, mas um roteiro que nunca decola, apelando para clichês batidos e personagens nem um pouco simpáticos, extraindo do filme qualquer empatia, o que seria imprescindivel para resultado final satisfatório. O gore de seus efeitos práticos até é adequado, mas sem personagens para quem se torcer, a produção caminha enfadonhamente até o seu desfecho sem deixar quaisquer marcas relevantes na memória do público. Nota 3,5
160 - A Espiã Que Sabia de Menos (Spy, 2015): o diretor Paul Feig comprova com essa ótima homenagem (e não paródia, como equivocadamente foi anunciada) ao gênero dos filmes de espionagem que é um dos cineastas criados por Hollywood que melhor sabe construir personagens femininas fortes e que se distanciam da visão estereotipada que o cinema americano ainda insiste ao retratar as mulheres na telona. A sua protagonista interpretada por uma ótima Melissa McCarthy (também presente nos dois filmes anteriores do diretor, Missão Madrinha de Casamento e As Bem-Armadas) é a antítese do registro machista reservado às mulheres pelo cinemão americano: a quarentona gordinha revela-se, no desenrolar da trama, uma agente secreta realmente habilidosa e versátil, muito além da caricatura com que os demais personagens a vêem no início do filme. É um longa que arranca facilmente gargalhadas em muitos momentos sem apelar para a escatologia ou o nonsense completo. Rose Byrne, Jude Law e Jason Statham formam uma trinca de coadjuvantes irrepreensível, cada um tirando sarro dos personagens estereotipados criados pelos filmes de espionagem, mas sempre preservando o respeito pelo gênero. Uma das melhores comédias de 2015. Nota 8
* 161 - Love (Love, 2015, em 3D): fadado a ser equivocadamente lembrado como "o filme com cenas de sexo explícito em 3D", o novo longa do irrequieto diretor argentino Gaspar Noé (Irreversível) busca retratar a paixão de dentro para fora, o que é em certo momento levado ao pé da letra quando Noé filma uma relação sexual sob o ponto de vista de uma vagina. Estruturado como um fluxo de pensamentos do personagem principal, remoendo passagens de uma relação amorosa mal-resolvida, Love é paradigmático em sua inegável vocação em chocar a plateia mais suscetível e puritana (as cenas de sexo são abundantes e sem qualquer firula), mesmo que sua estrutura narrativa seja até acadêmica e flua sem grandes dificuldades mesmo sob o viés do público médio. Não possui uma história original (e há uma pretensão incômoda na profusão de referências cênicas e na disposição do diretor em colocar-se dentro da trama, que cita seu nome e mesmo o utiliza como ator coadjuvante), mas consegue criar sequências e diálogos que encantam pela veracidade e similaridade que possuem em relação a experiências que todos já vivemos. A fotografia e trilha sonora são impecáveis e contribuem (e muito) para o resultado final, ao passo que o 3D é pobre e desnecessário (o longa parece ter sido rodado no formato somente para a famigerada cena em que uma ejaculação é lançada em direção à plateia). Espécie de romance às avessas, que disseca o amor justamente a partir de sua derrocada (o que o aproxima muito em certos momentos do superior O Último Tango Em Paris), Love não é o melhor filme do cineasta, mas é um atestado de que Noé é um diretor a ser acompanhado com atenção. Nota 8
162 - A Noite do Chupacabras (2011): contrariamente ao seu longa posterior (o divertido Mar Negro), aqui o diretor Rodrigo Aragão aposta em um viés sério ao desenvolver o seu filme, o que escancara da pior forma possível o paupérrimo orçamento e a ruindade do roteiro e do elenco, que mais parecem saídos de uma produção caseira filmada entre amigos do que de um projeto profissional. Com pouco humor, a história fraca se arrasta numa narrativa absurda e tremendamente chata, irritando o espectador com interpretações equivocadas e um monstro que simplesmente nunca funciona em cena. Um porre cuja ressaca é das piores possíveis. Nota 1
163 - A Hora Negra (La Hora Fría, 2006): ficção científica espanhola que intriga e, na medida em que é desenvolvida, vai afastando a sensação inicial de que o filme não vai conseguir explicar suficientemente seus mistérios (não o faz plenamente, mas compensa com um desfecho inesperado e adequado). Surpreende pela originalidade, tem bom clima e prende a atenção. Nota 7
164 - Z For Zachariah (Z For Zacharia, 2015): ótimo drama que, com sua roupagem pós-apocalíptica e referências religiosas bem sacadas, consegue extrair dos únicos três atores em cena (Chiwetel Ejiofor, Margot Robbie e Chris Pine) interpretações humanas e muito eficazes. Com uma narrativa lenta que investe tempo precioso na construção de seus personagens, é uma produção que encanta pelo realismo com que retrata a humanidade quando exposta a condições de extrema adversidade (e o paralelo que cria com o mito do pecado original é muito bem-vindo). Um ótimo trabalho do diretor Craig Zobel (do excelente Obediência). Nota 8
165 - Altar (Altar, 2014): nome que era figurinha fácil nos anos 80, Matthew Modine (Nascido Para Matar) deu uma desaparecida de uma hora para outra. Seria uma alegria revê-lo em um filme decente agora, o que não é o caso aqui. Pior: o ator demonstra uma propensão pelo overacting realmente incômoda que de certa forma justifica o seu anonimato atual. No mais, é um terrorzinho bem mequetrefe, daqueles que economizam sustos e não entregam um epílogo satisfatório. Parece que o diretor se perde em referências a O Iluminado e acha realmente que isso vai ajudá-lo no produto final. Spoiler: não ajuda em nada. Nota 4
166 - A Incrível História de Adaline (The Age Of Adaline, 2015): é bem fofo esse misto de drama e romance com um roteiro e uma pegada que lembram muito O Curioso Caso de Benjamin Button. A protagonista Blake Lively (Lanterna Verde, Selvagens) está muito bem no papel da mulher que parou de envelhecer, mas é Harrison Ford, em um papel coadjuvante, quem realmente rouba a cena com uma interpretação que foge do comodismo habitual do ator. Como muita gente já comentou, o seu patriarca forma um casal com muito mais química com Lively do que o galã da vez, o mal aproveitado Michiel Huisman, dos seriados Treme e Game Of Thrones. Muito bonitinho e, como tal, flui que é uma beleza. Nota 7
167 - Dezesseis Luas (Beautiful Creatures, 2013): parece às vezes que essa adaptação de uma série de livros adolescentes tem algo a dizer que ultrapassa as amarras morais dentro do subgênero em que está inserida, principalmente ao dar corpo a uma bem vinda crítica ao fanatismo religioso travestido de cristianismo. O elenco é ótimo, começando pelo promissor casal central (Alice Englert e Alden Ehrenreich fogem dos estereótipos que as ficções teen nos forçam goela abaixo), bem escudado por uma bem combinada escalação dos coadjuvantes (Jeremy Irons, Viola Davis, Emma Thompson, Emmy Rossum, todos estão muito bem em cena). O problema é que, como estopim de franquia, o longa nunca atinge o auge que deveria para criar uma expectativa de continuidade para a história, além de investir tempo demais em um romance daqueles mais previsíveis. Para piorar um pouco, o filme apela em seu clímax para situações que surpreendentemente não geram consequências dentro da trama, resultando em um produto mal explicado e que, a julgar pelo fracasso comercial, cujas perguntas nunca encontrarão respostas no cinema. Nota 4,5
* 168 - Que Horas Ela Volta? (2015): junto com Trabalhar Cansa (2011) e O Som Ao Redor (2012), forma uma trilogia irrepreensível sobre a moderna classe média alta brasileira, mas Que Horas Ela Volta? consegue ir ainda mais longe em sua capacidade de comunicação também com a parcela do público que critica (e as risadas rasgadas ouvidas em uma sessão do filme em qualquer multiplex revelam a mais completa ignorância de seu alvo em relação ao que está de fato sendo mostrado na tela, o que por si só já dá margem a um estudo social a parte). É essa versatilidade narrativa que atrai tanto a platéia afeita a produtos com substância intelectual (o que o filme tem de sobra) quanto o público médio, que se diverte com as tiradas inspiradas do roteiro, que faz da produção um dos melhores exemplares da cinematografia brazuca recente. Um filme com uma pegada feminina precisa que comprova a excelência de Anna Muylaert (Durval Discos, É Proibido Fumar) como narradora de histórias, mas também revela um elenco coadjuvante excelente: Camila Márdila e Karine Teles estão impecáveis, ao passo que o autor/quadrinista/ator Lourenço Mutarelli compõe um personagem que navega de forma precisa entre a apatia e o quase autismo de seu patriarca. Sem falar que Regina Casé, após anos nos fazendo esquecer de seu talento dramático em programas como o Esquenta, da Globo, entrega uma performance plenamente laureável como a protagonista Val, ressuscitando uma carreira que já mostrara a que veio nos tempos da TV Pirata e de Eu, Tu, Eles (a versatilidade com que combina drama e comédia às vezes na mesma cena é algo espantoso). Que Horas Ela Volta? não só agrada àqueles que buscam uma boa comédia (muitas passagens guardam um timing cômico irresistível), como entrega um estudo crítico que escancara toda a disparidade social ainda existente no Brasil, muitas vezes evidenciada em microcosmos improváveis como a casa de uma família tida como liberal. As sequências cômicas presentes em Que Horas Ela Volta? guardam em si um gosto amargo na boca de quem realmente compreende o que o filme tem a dizer. Porque é um espelho e somos nós mesmos refletidos naquela imagem disforme. Um filme essencial. Meeeeesmo. Nota 9
169 - + 1 (+1, 2013): projeto independente que, já a partir do título, tenta imprimir estranheza e deslocamento dentro de uma história até certo ponto original que mexe com paradoxos temporais, clones e diversos elementos clássicos do gênero sci fi. Apesar do início promissor, que atiça a imaginação do espectador, parece não saber direito o que fazer com o próprio conceito, transformando o roteiro em um imbroglio tedioso que simplesmente não vai a lugar algum. Nota 2,5
170 - O Mercado de Notícias (2014): interessantíssimo híbrido de documentário e adaptação teatral que confirma a inventividade com que o cineasta Jorge Furtado busca formas originais de transmitir as suas ideias, concorde-se ou não com elas. Aqui, se por um lado Furtado centra o seu olhar sobre o jornalismo com um saudosismo adequado, por outro o faz com uma visão crítica que, apesar de esperada, parece não ser tão incisiva quanto a peça que reencena entre os depoimentos dos entrevistados (de fato, "The Staple Of News, de Ben Jonson, publicada em 1631, parece tão atual quanto mais ferina em seus comentários sobre a classe jornalística). Mesmo assim, é uma produção que encanta por seu hibridismo formal e por resultar memorável em diversos momentos (o trecho sobre o Picasso falso do INSS e a cobertura equivocada dada pela mídia brasileira ao caso é dessas sequências que nasceram para virar matéria acadêmica obrigatória nas universidades). Nota 8
171 - Tangerinas (Mandariinid, 2013): indicado ao Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro representando a Estônia, é um dos mais lindos libelos contra a guerra dos últimos anos. Filmado com muita classe pelo georgiano Zaza Urushadze (guarde esse nome!), é dessas pequenas odisseias que utiliza um microcosmo conciso para entregar uma mensagem universal. Fotografado lindamente e com uma trilha sonora irrepreensível, Tangerinas ainda tem no seu enxuto elenco um de seus maiores acertos (o protagonista interpretado pelo estoniano Lembit Ulfsak poderia muito bem ter sido indicado ao Oscar, o mesmo valendo para a excelente trinca de coadjuvantes). Antibelicista sem soar discursivo e alternando momentos de ternura, bom humor e violência, é um filme que deixa um gosto ao mesmo tempo cítrico e doce ao final da projeção. Exatamente como o das tangerinas que desencadeiam sua trama. Imperdível. Nota 9
172 - Uma Noite Mais Que Louca (Take Me Home Tonight, 2011): comédia ambientada na década de 80 que, se não fosse justamente o balaio de referências oitentistas, não teria qualquer razão para existir. O diretor Michael Dowse (do muito superior Os Brutamontes) usa e abusa das citações a fenômenos pop da época e é sempre divertido retornar a um período em que não existiam telefones celulares, mp3 e Netflix. Entretanto, nada no filme é engraçado o suficiente para justificar a trama bobinha e derivativa de títulos muito melhores realizados três décadas atrás. Nota 4
173 - Burying The Ex (Burying The Ex, 2014): é difícil de acreditar que o mesmo Joe Dante que deu ao mundo Piranha, Grito de Horror, os dois Gremlins, Viagem Ao Mundo dos Sonhos e Viagem Insólita esteja hoje relevado a diretor de aluguel de projetos de baixo orçamento como é o caso dessa comediazinha de humor negro que, se por um lado tem um elenco interessante (Ashley Greene é um achado e tanto e é responsável pelas cenas mais engraçadas do filme), por outro não dá espaço para que Dante consiga brilhar como deveria. Mesmo as marcas registradas impressas pelo cineasta aqui e ali (as referências aos clássicos do horror, a ponta de Dick Miller, habitué de todos os seus filmes) soam datadas e completamente fora de sintonia com o roteiro. Diverte ocasionalmente, mas só. Nota 4,5
174 - Poltergeist: O Fenômeno (Poltergeist, 2015): não havia motivo bom o suficiente que justificasse a produção de um remake do clássico de Tobe Hooper e Steven Spielberg de 1982, mas o nome de Gil Kenan na direção até dava alguma esperança no projeto, pois o cara demonstrou seu amor pela década de 80 e pelos clássicos da Sessão da Tarde em A Casa Monstro e Cidade das Sombras. Infelizmente, tudo o que dá certo nessa refilmagem é reminiscente da obra original. Não que seja um filme ruim, pois Kenan até imprime ao longa um ritmo adequado e por vezes bem divertido. Porém, a mera repetição de ideias já executadas à perfeição no longa que lhe serve de base transforma o filme em uma pálida cópia carbono cuja existência é, por si só, desnecessária. Nota 4,5
175 - Go Goa Gone (Go Goa Gone, 2013): o fato mais curioso que se pode atribuir ao longa é a clara intenção de seus realizadores de se distanciarem do formato estabelecido por Bollywood, produzindo o primeiro filme de zumbis da indústria cinematográfica da Índia com forte influência dos filmes norteamericanos. Essa mistura entre dois modos diametralmente opostos de se fazer cinema, porém, nunca dá a liga esperada. O humor e as piadas soam demasiadamente infantilizados (às vezes, dá a impressão que se está assistindo a um episódio do Chaves) e quase sempre fora do tom absurdo pretendido para a história. As cenas de ação são constrangedoras de tão ruins. Nota 2
176 - Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada É Impossível (Tomorrowland, 2015): é muito injusto que um filme como Tomorrowland tenha fracassado de forma retumbante nas bilheterias mundiais. A nova incursão na direção de Brad Bird (O Gigante de Ferro, Os Incríveis, Ratatouille e Missão Impossível: Protocolo Fantasma) comprova o imenso talento do cineasta em criar aventuras à moda antiga, que utilizam a tecnologia em favor da trama e não vice-versa, o que é cada vez mais frequente em Hollywood. E é um filme que celebra o espírito humano em sua capacidade de romper fronteiras através do pensamento, o que por si só já é uma mensagem superior àquela transmitida incessantemente pela esmagadora maioria das produções voltadas para o entretenimento de massa. Alto astral e sem qualquer resquício de cinismo, Tomorrowland é um longa deslocado de seu tempo. Pelo menos a fé que o roteiro deposita na humanidade me dá alguma esperança de que, talvez no futuro, ganhe a apreciação que merece. Nota 8
177 - O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator Genisys, 2015): resultado da ganância dos executivos de Hollywood, que não descansam até que caia em seus bolsos a última moedinha de centavos de dólares que possa gerar alguma franquia cinematográfica, o novo Exterminador do Futuro tenta a todo custo recondicionar um motor há muito fundido. O resultado, como já era de se esperar, é um longa que atira para tudo quanto é lado em uma tentativa desesperada de reviver uma trama que já se esgotara à perfeição nos dois primeiros filmes. A nova linha de tempo estabelecida no novo filme soa confusa e aborrecida, assim como as cenas de ação acadêmicas e sem qualquer inspiração (os efeitos digitais, por vezes, resultam vergonhosos para uma superprodução americana). Para piorar, Emilia Clarke e Jai Courtney estão pavorosos na pele de Sarah Connor e Kyle Reese (dá vontade de suspirar de saudades de Linda Hamilton e Michael Biehn a cada aparição da dupla). A melhor coisa da produção, disparado, é o retorno de Schwarzenegger à série: toda a vez que o Governator aparece em cena, transbordando carisma e totalmente à vontade na pele do personagem que lhe deu fama, o filme cresce um tantinho e quase consegue engrenar a terceira marcha. Nota 4,5
178 - Riocorrente (2013): estréia na direção de longas de ficção do crítico de cinema Paulo Sacramento (ele havia rodado anteriormente o excelente documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro), Riocorrente, assim como seu título sugere, é narrado como o curso natural de água que flui em direção ao mar. Formado a partir de recortes extraídos da vida de quatro personagens principais cujas trajetórias jamais são explicitadas de forma didática, o longa se aproxima muito dos video-ensaios produzidos por artistas plásticos. Há uma profusão às vezes pretensiosa em demasia de povoar o longa com simbolismos e alegorias visuais que buscam condensar nas imagens o que o roteiro deixa de explicitar. De fato, esse registro de Sacramento sobre a vida em uma grande metrópole (no caso, São Paulo) carece de um roteiro melhor desenvolvido e que não soe tão episódico e fragilmente alinhavado. Por outro lado, as suas metáforas visuais, na maior parte do tempo, são poéticas e suficientemente eloquentes, o que acaba por revelar as reais intenções de seu realizador. Nota 7
179 - Cooties: A Epidemia (Cooties, 2014): divertida comédia de terror que parte de uma premissa bacana (professores são emboscados em uma escola primária quando os alunos viram zumbis) e conta com um ótimo elenco (Elijah Wood, Rainn Wilson, Alison Pill, Jorge Garcia, todos muito bem em cena). O roteiro de Leigh Wannell (Jogos Mortais, Sobrenatural) não consegue desenvolver suficientemente a trama em todo o seu potencial (o final parece mais saído de um piloto de seriado do que de um longa-metragem), mas o humor politicamente incorreto e as boas atuações tornam agradável a experiência. Nota 6,5
180 - Dossiê Jango (2013): dirigido pelo também crítico de cinema Paulo Henrique Fontenelle (Loki - Arnaldo Baptista, Cássia Eller), é um documentário essencial que funciona tanto como registro de época como documento investigativo que instiga o espectador sem tratá-lo como idiota. Pelo contrário, Dossiê Jango dá homeopaticamente todas as informações e versões necessárias para que o público consiga formar uma opinião própria sobre os fatos narrados. Alternando imagens de arquivo e depoimentos surpreendentes de pessoas próximas do ex-presidente João Goulart, o filme é menos uma teoria da conspiração sobre sua morte do que um irrepreensível resgate do momento político nefasto pelo qual atravessava a América do Sul nos anos 60 e 70, inclusive escancarando a participação dos EUA na manutenção das ditaduras latinas no período. Um filme tão importante deveria ser visto por um público muito maior. Nota 9
181 - Morgue Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos (2009): adaptação de uma peça teatral que fez sucesso no circuito paranaense, dirigida e roteirizada pelo seu próprio autor, Paulo Biscaia Filho, e contando no elenco com os mesmos atores que defenderam os personagens nos palcos, é uma bem sacada homenagem à cultura pop moderna, mesclando toda a sorte de referências que fazem a alegria da juventude contemporânea (de George Romero a Tarantino, de quadrinhos a músicas dos anos 70/80). É um exercício de gênero bem interessante, com um elenco coeso e com absoluto domínio de seus personagens (Leandro Daniel Colombo rouba a cena e merece ganhar mais oportunidades urgentemente). Por vezes, Biscaia não consegue extrair da narrativa a carga teatral que carrega em si, resultando em sequências cuja entonação dos diálogos provoca uma incômoda sensação de artificialidade ao filme. No geral, uma boa (e inesperada) diversão. Nota 7,5
* 182 - Evereste (Everest, 2015, em IMAX 3D): correto filme-catástrofe que reencena de forma hábil o desastre ocorrido no Monte Evereste em 1996. As sequências ambientadas durante a escalada da montanha são impressionantes e o 3D é utilizado de forma inteligente e impactante. Além do mais, o elenco estelar (Jason Clarke, Josh Brolin, Jake Gyllenhaal, Keira Knightley, Emily Watson, Robin Wright, Sam Worthington, John Hawkes) é bem explorado, o que conquista de forma instantânea a empatia do público. As cenas de ação são muito bem conduzidas, alternando a grandiloquência das imagens com a absoluta tensão contida no terço final da projeção. O roteiro evita cair nos clichês batidos do gênero, como por exemplo tornar um personagem o antagonista atribuindo-lhe artificialmente características negativas. Evereste é muito mais uma aventura sobre a luta pela sobrevivência do que um enlatado com mocinhos e bandidos enquadrados de forma mecânica. Escorrega no sentimentalismo em seu epílogo, mas é um pecado até perdoável. Um bom exemplar do subgênero dos disaster movies. Nota 7,5
183 - Crimes Ocultos (Child 44, 2015): começa promissora essa adaptação do romance de Tom Rob Smith, com uma excelente ambientação de época na União Soviética stalinista e um clima de paranoia que cai como uma luva no cenário ditatorial vivido naqueles tempos. É de certa forma surpreendente que Tom Hardy se saia tão bem como o protagonista, conseguindo driblar o viés caricatural que poderia sair de uma interpretação que lança mão do sotaque russo carregado em um filme totalmente falado em inglês. A sua dupla com Noomi Rapace, reprisando a mesma dobradinha vista em A Entrega, de 2014, possui química adequada e, se o filme centrasse toda a sua força na trama urdida entre o casal e o jogo de aparências em que cada indivíduo é obrigado a esconder segredos do regime político opressor, o resultado seria muito melhor. O problema é que Crimes Ocultos guarda em seu roteiro também outro filme totalmente diferente, um suspense policial de caça a um serial killer que, além de não acrescentar nada de novo ao gênero, ainda tem um desfecho apressado, inverossímel e totalmente anticlimático, arrastando para fora da tela nesse meio tempo o personagem de Gary Oldman, totalmente desperdiçado. Uma pena. Nota 4,5
184 - Alemão (Alemão, 2014): se fosse uma produção americana e seu elenco entregasse as falas em inglês fluente, é capaz de Alemão ter resultado em um sucesso de público que a crítica muito provavelmente saudaria como um exemplar digno do gênero policial. Como trata-se de uma produção brasileira, a sua recepção foi um tanto morna e sua carreira nos cinemas não chegou a render tanto dinheiro quanto as nefastas comédias da Globo Filmes. O cinema de gênero feito no País ainda enfrenta certo preconceito por parte do grande público, uma espécie de viralatismo que absorve todo e qualquer enlatado vindo de fora, mas não dá chances ao que é produzido aqui. Alemão é um policial clássico que ganha força por causa de um elenco sem pontas frágeis e cuja história prende a atenção do espectador desde os primeiros e eletrizantes minutos. O tom claustrofóbico impresso ao longa também amplifica a tensão e a sensação de impotência dos protagonistas. A única derrapada mais grave é a inclusão da subtrama tola e previsível protagonizada por Antonio Fagundes e outro personagem. No mais, um bom policial com sotaque tipicamente brasileiro. Nota 7
** 185 - Sobrenatural: Capítulo 2 (Insidious: Chapter 2, 2013): já tinha varrido totalmente o filme da minha cabeça, apesar de fazer pouco tempo em que o vira (menos de dois anos). Ainda assim, a sua revisão consegue piorar ainda mais um filmeco que, se da primeira vez soara meia-boca, agora me pareceu terrível. Sem meter medo e com um roteiro pavoroso, que abusa da burrice de suas situações, é uma bola fora surpreendente para um diretor que, no mesmo ano, lançara também o ótimo Invocação do Mal. Nota 2,5
186 - Sobrenatural: A Origem (Insidious: Chapter 3, 2015): Leigh Wannell, roteirista dos dois primeiros filmes da franquia, assume aqui a direção da terceira parte após a saída do diretor James Wan, que foi fazer dinheiro com Velozes E Furiosos 7. A verdade é que Wannell até que se sai bem, conseguindo ao menos dar alguns sustos eficazes ao longo da metragem, o que o longa anterior ficara devendo. Sem ter uma ideia de como continuar a história da família protagonista dos longas anteriores, essa terceira parte lança mão do artifício das prequels, se esforçando para buscar no passado de uma das coadjuvantes dos outros filmes (a vidente interpretada por Lin Shaye, que morrera no final da produção original) elementos que, de alguma forma, apresentem conexão com os fatos vistos nos demais exemplares da franquia. A estratégia, como já era de se esperar, não dá lá muito certo. Fora um ou outro momento em que consegue estabelecer o clima de terror, o longa tem pouco a oferecer. O roteiro tenta ampliar ainda mais o conceito de além-vida que já se esgotara no primeiro filme, escancarando a fragilidade do argumento e apelando até mesmo para o batido clichê do fantasma do ente querido que volta para proteger os vivos. Sem falar nos coadjuvantes engraçadinhos interpretados pelo diretor Whannel e Angus Sampson que, se pareciam simpáticos no Sobrenatural original, ao ganharem mais espaço na tela soam absolutamente sem graça e mais irritam do que entretêm. Nota 4,5
187 - Terror Nos Bastidores (The Final Girls, 2015): boa comédia que usa de metalinguagem para prestar uma sincera homenagem aos slasher movies dos anos 80, principalmente à franquia Sexta-Feira 13. Tem um roteiro com um conceito bacana, uma espécie de A Rosa Púrpura do Cairo às avessas, e um ótimo elenco que parece se divertir muito ao parodiar os tipos estereotipados dos filmes de terror adolescente. A piada começa a soar repetitiva já pela metade do filme, mas mesmo assim é um longa que diverte o suficiente para não abusar da paciência. Nota 6,5
188 - Turma 94 - O Grande Encontro (The D Train, 2015): o que começa como uma comédia despretensiosa e que parece conduzir para aqueles simpáticos, mas esquecíveis, filmes sobre reuniões de ex-colegas do Ensino Médio (o que combinaria com a persona escrachada do protagonista Jack Black), de repente, sem aviso algum, toma um súbito desvio causado por uma reviravolta que força os limites de gênero, dando um tom sombrio e dark à produção. Ao introduzir essa mudança de caminho que envolve sexualidade e transtornos psiquiátricos, a dupla de diretores Andrew Mogel e Jarrad Paul (roteiristas da comédia Sim, Senhor, com Jim Carrey) desafia corajosamente as convenções do cinemão americano, o que, por si só, já é muito bem vindo. E, por incrível que pareça, ainda conseguem dar a uma produção que flerta com temas espinhosos e aborda facetas perturbadoras da personalidade de seu personagem principal um desfecho bem alto astral. Um filme estranho, mas no mínimo interessante em sua proposta de dispensar rótulos. Nota 7
* 189 - Perdido Em Marte (The Martian, 2015, em 3D): que coisa boa presenciar o reencontro de um grande diretor com o sucesso que há anos lhe escapava pelas mãos. Ridley Scott volta ao gênero da ficção científica com um blockbuster irretocável, um filme tão divertido que, no acender das luzes do cinema, a vontade é de começar tudo de novo. Ópera espacial que ganha um surpreendente bom-humor nas mãos de Scott e de seu protagonista Matt Damon, Perdido Em Marte, longe de ser o "Náufrago no Espaço" que prometia, é uma produção que abraça como muito poucas antes o conceito de entretenimento. Tudo é luminoso no filme, da personalidade cativante e positiva de seu personagem principal até as reações de seus conterrâneos ao moverem mundos e fundos para o seu resgate. Uma verdadeira ode à Ciência e ao humanismo, o roteiro é uma aula magna de como construir uma trama com inteligência e sem nunca cair nos clichês rasteiros ou no sentimentalismo barato. Com um elenco espetacular, Perdido Em Marte é um longa cuja fruição é um deleite para todos os sentidos (o uso esperto da trilha sonora setentista é um de seus muitos achados, assim como a fotografia deslumbrante), bem como um caso raro de superprodução que preza a inteligência de seus personagens e nunca escorrega para o misticismo popularesco. Para resgatar um pouco de esperança na humanidade (e, vá lá, em Hollywood também). Nota 9
190 - Palavrões (Bad Words, 2013): estreia do protagonista Jason Bateman como diretor de longas, é uma comédia que abusa de sua incorreção política para fazer rir. Há boas sacadas e Bateman prova ter aprendido o ofício com competência. Pena que seu personagem principal seja um sujeito tão antipático que fica difícil acompanhá-lo. Pena 6
* 191 - A Travessia (The Walk, 2015, em IMAX 3D): a tecnologia de projeção IMAX melhora qualquer filme, mesmo os mais horrorosos, pois a imersão sensorial que proporciona ao público é impossível de ser reproduzida em qualquer outro meio de exibição. Por outro lado, são raros os exemplos de filmes que realmente NECESSITAM ser assistidos nas telas da rede e que não podem ser apreciados em outras plataformas. A Travessia é o filme que deveria justificar a própria existência do IMAX, pois assisti-lo em qualquer outro local o transforma em uma produção totalmente diferente (a produção foi rodada com câmeras especiais e totalmente pensada para o formato). Dirigido pelo sempre ótimo Robert Zemeckis, o filme é a adaptação para as telas do feito conseguido pelo francês Phillipe Petit (um Joseph Gordon-Levitt bem esforçado) em 1974, pouco tempo antes da inauguração das duas torres do World Trade Center, o que já havia sido abordado pelo excelente documentário O Equilibrista, ganhador do Oscar da categoria em 2009. Zemeckis imprime ao longa um ritmo muito agradável, principalmente durante as primeiras sequências ambientadas em Paris e, se a narração em off do protagonista soa dispensável e anticlimática, há uma deliberada desaceleração na metade do filme que se justifica plenamente durante os sensacionais 40 minutos finais de projeção, quando o plano de Petit e seus cúmplices finalmente é posto em prática. Desde a infiltração do protagonista nos prédios, a sensação de tensão vira uma constante, algo muito bem explorado pelo diretor. E, quando a travessia que dá título ao filme é iniciada, é impossível conter o suor nas mãos ou mesmo desviar os olhos da tela, por mais que seja esta a nossa vontade em alguns instantes. Desfrutar dessa sequência final em IMAX, como o filme foi idealizado, é uma das grandes experiências cinematográficas dos últimos anos. Por alguns momentos, a imersão é tanta que mesmo quem não sofre de vertigem é capaz de ter vontade de sair correndo da sala de cinema. No mais, um belo libelo ao espírito humano e cuja história ganhou, por força dos atentados de 2001, todo um novo simbolismo. Nota 8
* 192 - A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015): homenagem explícita do cineasta mexicano (e nerd de carteirinha) Guillermo Del Toro aos romances góticos que leu durante a adolescência, em especial O Morro dos Ventos Uivantes e Jane Eyre, das irmãs Brontë, A Colina Escarlate é um filme visualmente deslumbrante. Será um crime se não for indicado a muitos prêmios, principalmente por seu design de produção de cair o queixo, que construiu de verdade o sensacional castelo que serve de locação para a maior parte da trama. E que castelo! Totalmente estilizada, a construção mimetiza a personalidade dos personagem que a habitam e é de longe o personagem mais interessante do filme. Completando o espetáculo visual, a fotografia e os figurinos são embasbacantes. Já a trama é desnecessariamente previsível e seu rumo é facilmente telegrafado com cinco minutos de projeção, o que é uma pena. Já a adição de elementos fantásticos (no caso, fantasmas), algo que Del Toro havia feito com maestria em A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno, aqui se apresenta desnecessária e incomodamente anticlimática (não há sustos eficazes e os momentos de tensão e suspense que realmente funcionam são aqueles em que as almas penadas não estão na tela). Já o elenco está bem, mas quem se destaca mesmo são as protagonistas Mia Wasikowska e, principalmente, Jessica Chastain, que consegue extrair de sua gélida vilã todo o potencial que a personagem tinha no papel. Nota 6,5
193 - Chappie (Chappie, 2015): primeira grande derrapada do diretor Neill Blomkamp, de Distrito 9 e Elysium, é uma ficção científica que não se decide pelo futuro violento reminiscente de Robocop ou da aventura familiar de Curto Circuito. Essa indecisão em fazer um filme para adultos ou uma fábula juvenil transforma o longa em uma colcha de retalhos de referências e temas já explorados em filmes muito melhor resolvidos. O elenco é bem interessante (Hugh Jackman, Sigourney Weaver, Dev Patel e Sharlto Copley como a voz do robô Chappie), mas a estética é toda repetida dos trabalhos anteriores de Blomkamp, o que soa cansativo. Já a dupla de rappers sul-africanos Ninja e Yo-Landi Visser, que interpretam os gângsteres que "adotam" o protagonista, são insuportáveis. Salvam-se os efeitos especiais e olhe lá. Nota 4,5
194 - Stretch (Stretch, 2014): comédia de ação que lembra um Depois de Horas (1985) da geração Tarantino. Completamente surtado, o filme é uma divertida jornada ao inferno que leva o protagonista (Patrick Wilson, ótimo) a passar por toda a sorte de roubadas e provações durante uma noitada por Los Angeles. Com um elenco coadjuvante bacana (Chris Pine está muito bem, assim como Ed Helms, Brooklyn Decker, David Hasselhoff e Ray Liotta) e um climão que remete a Amor À Queima Roupa, é uma produção que tem todo o potencial para virar cult movie daqui a alguns anos. Nota 7,5
* 195 - Ponte dos Espiões (Bridge Of Spies, 2015): toda a vez que Steven Spielberg se propõe a fazer um filme "menor", ou seja, uma produção que dispensa grandes orçamentos ou o exercício dentro de um gênero capaz de render bilheterias polpudas, é sinal de que há coisa boa por vir. Com Ponte dos Espiões não é diferente. Abraçando o subgênero dos filmes de espionagem realistas, no estilo de A Conversação e O Homem Que Sabia Demais, Spielberg monta um panorama surpreendentemente politizado da época da Guerra Fria. As elipses que utiliza no desenvolvimento da narrativa dizem muito sobre suas intenções, em especial a que contrapõe o julgamento do prisioneiro russo em solo americano (e a reação animalesca do público presente) e do prisioneiro americano em solo soviético, bem como a genial transição que inicia com um "all rise" em um tribunal e segue com a lavagem cerebral sofrida por crianças na escola primária, bombardeadas por uma propaganda política cuja única intenção era a promoção do medo na população. Com intenções tão nobres, Ponte dos Espiões navega em águas tranquilas em sua capacidade de entreter enquanto entrega uma mensagem antibelicista importante em uma época de extremismos como a que vivemos hoje. E ninguém melhor para personificar o ideal de retidão e moralidade apto a nos fazer acreditar nisso do que Tom Hanks, que parece saído de um filme de Frank Capra e consegue transmitir honestidade como poucos atores vivos. Quem rouba o filme para si, entretanto, é o britânico Mark Rylance, que, desde a impecável cena inicial, consegue estruturar o espião russo que interpreta através de silêncios, pequenas nuances de interpretação e de uma caracterização física impressionante. Com uma fotografia magnífica de Janusz Kaminski, parceiro habitual do diretor, e uma ambientação de época irrepreensível, Ponte dos Espiões ainda consegue criar tensão em seu terço final sem praticamente conter cenas de ação (por outro lado, é divertido ver aflorar o instinto de Spielberg como esteta do gênero quando ele torna a simples ejeção de um piloto de um jato em uma sequência complexa do ponto de vista técnico e que resulta espetacular). Mesmo que a trilha de Thomas Newman (WALL-E, 007 - Operação Skyfall) soe grandiloquente e melodramática demais em alguns momentos, é mais uma bola dentro de Spielberg. Nota 8
196 - A Capital dos Mortos (2008): em que pese a simpatia inegável em ver jovens cineastas experimentando no gênero terror no Brasil, esse filme de zumbis aqui é ruim prá lá da conta. Parece mais uma brincadeira feita entre amigos sem nenhuma noção dos princípios mais básicos de cinematografia (o que, a bem da verdade, deve ter sido o caso). Apesar dos efeitos práticos até não parecerem tão atrozes, o resto da produção segue um nível tão baixo que é difícil aguentar o longa até o final. O roteiro é derivativo e chato pra mais de metro e o elenco é uma das maiores junções de malas-sem-alça que já se viu na tela, em especial o personagem nerd, o maior Zé Ruela que eu já tive de suportar por uma hora e meia na minha vida. Nota 1
* 197 - Sicario: Terra de Ninguém (Sicario, 2015): excelente retrato da guerra americana contra as drogas, expõe de forma realista a linha tênue que separa o cumprimento do dever de policiamento do cometimento de crimes. Há uma sensação de tensão que permeia o longa desde a sua primeira cena (a sequência da passagem pela fronteira é um primor de execução nesse sentido) e não larga o espectador em momento algum até o seu desfecho, que, aliás, é de grudar os dedos na cadeira do cinema. Sicario se distancia dos filmes de gênero e guarda muito mais parentesco com longas como Syriana e Onde Os Fracos Não Têm Vez, mas ao mesmo tempo dá à Sétima Arte dois personagens casca-grossa memoráveis: Emily Blunt está muito badass como a protagonista, enquanto Benicio del Toro constrói um coadjuvante tão ameaçador e letal que poderia até mesmo protagonizar um filme só seu (ideia, aliás, que já circula por Hollywood). Um baita suspense policial que foge ao convencional e comprova que o diretor canadense Denis Villeneuve (Incêndios, O Homem Duplicado) é um dos grandes nomes do cinema atual. Não é agradável de se assistir, mas é importante demais o que representa. Nota 8,5
198 - Cypress Creek (Cypress Creek, 2014): até agora eu não consegui entender direito a intenção por trás desse filme. Não sei se seus defeitos foram cometidos deliberadamente ou por inépcia de seus realizadores. O negócio é um pastiche de filme de terror que, lá pelas tantas, adquire um tom surreal, com imagens aleatórias que parecem saídas de um pesadelo do David Lynch, tomando de assalto a tela. Há algumas cenas até interessantes no meio da massaroca toda, mas o ritmo é tão equivocado, as referências a Uma Noite Alucinante tão óbvias e a falta de profissionalismo tão evidente que aguentar os 90 minutos de metragem revela-se uma tortura da Yakuza. A edição de som mereceria prêmios, pois é certamente a pior da história do Cinema, assim como a montagem absurda, que parece ter sido feita de forma aleatória durante uma viagem de ácido. O longa às vezes parece querer homenagear o gênero de terror, enquanto em outros momentos se aproxima mais de uma videoinstalação de exposição de artes. Seja qual foi a intenção dos realizadores, é um dos piores filmes que eu já vi na vida. E isso é muito. Nota 0,5
* 199 - Homem Irracional (Irrational Man, 2015): mesmo quando faz filmes "menores", Woody Allen é sempre eficaz em sua profunda aptidão em tornar situações coloquiais em verdadeiros tratados filosófico-literários. Em Homem Irracional, o diretor toma partido das ensolaradas locações de Rhode Island para retomar a temática de crime e castigo já vista em muitos de seus longas anteriores. Allen repete aqui o mesmo discurso dostoievskiano de Crimes e Pecados, Match Point - Ponto Final e O Sonho de Cassandra, o que torna a produção um pouco mais reminiscente de seus trabalhos anteriores do que deveria, mas pelo menos as belas paisagens e a ótima trilha sonora dão à premissa batida o invólucro ideal para ser (re)apreciada. A narrativa em off dos dois personagens principais soa incômoda e desnecessária, mesmo porque os atores defendem suficientemente bem os seus personagens. Joachim Phoenix se sai muito bem como o protagonista, mas é Emma Stone que realmente brilha em cena. Um filme "menor" de Allen continua sendo melhor do que muito trabalho "maior" da maioria dos cineastas contemporâneos. Nota 7,5
* 200 - Grace de Mônaco (Grace Of Monaco, 2014): Nicole Kidman parecia, ao menos alguns anos atrás, a escolha perfeita para viver nas telas Grace Kelly, tamanha a semelhança (nem tanto física, mas mais de postura e estilo) que as duas atrizes guardavam entre si. O tempo passou e não foi exatamente carinhoso com Kidman. Apesar de aparentar menos idade do que tem na vida real, Nicole abusou prematuramente das intervenções estéticas, o que tornou seu rosto outrora perfeito em um personagem a parte nos últimos anos. O excesso de botox aplicado na face da atriz até foi amenizado no filme, mas é impressionante como as suas feições mudam literalmente de uma cena para outra, às vezes escancarando o tratamento estético, às vezes escondendo-o. O que amplifica essa sensação de estranhamento é a quantidade injustificável de closes no rosto da atriz que o diretor Olivier Dahan insiste em enquadrar a cada aparição da protagonista em cena. Aliás, a direção de Dahan repete aqui os mesmos maneirismos que empregara em Piaf: Um Hino Ao Amor (Piaf, de 2007). Só que, enquanto naquele filme os excessos estilísticos do cineasta caiam como uma luva para registrar a persona passional e expansiva da biografada, aqui se mostram totalmente divorciados de sua personagem-título, que se notabilizou justamente pela elegância e refinamento. Assim, toda a virtuosidade pretendida pela direção resulta melodramática, novelesca e, o pior de tudo, brega até dizer chega, justamente o oposto do tom adequado a uma cinebiografia de Grace Kelly (os momentos em que o filme subitamente parece querer adotar o clima de um suspense de espionagem lá pelas tantas, o que dura no máximo 5 minutos, são constrangedores, assim como os diálogos vergonhosos travados entre Grace e o padre interpretado por Frank Langella). A fotografia pelo menos é belíssima, utilizando muito bem os cenários paradisíacos de Mônaco, ao passo que os figurinos e a direção de arte retratam muito bem o glamour da época. O principal problema, porém, é que Kidman, geralmente uma atriz muito eficiente, parece surpreendentemente insegura no papel central (justamente o oposto de Tim Roth, que oferece uma interpretação discreta, mas muito eficiente, como o príncipe Rainier), o que automaticamente complica o desenvolvimento de um filme que nunca parece decidir qual história deseja contar e que, no final das contas, não desvenda a personagem nem explica adequadamente a sua trajetória além do que uma mera pesquisa no Google elucidaria. Nota 4
201 - Going Clear: Scientology And The Prison Of Belief (Going Clear: Scientology And The Prison Of Belief, 2015): dirigido pelo oscarizado Alex Gibney (Um Táxi Para A Escuridão), é um documentário que ousa escancarar os bastidores da Cientologia e demonstrar que, por trás de uma fachada íntegra, esconde-se uma religião que prega em seu âmago o mercantilismo selvagem, nem que para isso sejam praticados atos de corrupção, lavagem cerebral e mesmo violência física e mental contra seus seguidores (os depoimentos de ex-fiéis, dentre eles o cineasta Paul Haggis, são aterrorizantes). Envolvente em sua impecável estrutura investigativa e ousado ao apontar as idiossincrasias da religião ao mesmo tempo em que se resguarda de declarações que pudessem fundamentar ações judiciais, Going Clear, se não tivesse entre seus alvos personalidades como Tom Cruise e John Travolta (ambos retratados como vítimas de uma ideologia que lhes foi imposta e da qual viraram reféns), poderia ter como tema central qualquer outra seita ou agremiação religiosa extremista, o que confere ao filme caráter universal e importância além de seu tema central. Nota 8
202 - Dude Bro Party Massacre III (Dude Bro Party Massacre III, 2015): homenagem aos slasher movies lançados em VHS na década de 80, é uma paródia sincera e afetuosa ao subgênero dos "filmes ruins de assassinos em série". A estética que imita a imagem distorcida dos VHS é sensacional e há momentos de genuína satisfação para os fãs de terror aqui e ali, mas, a partir de sua metade, parece que a piada envelhece mais do que deveria e seu humor passa da gargalhada para o sorriso de canto de boca. Nunca chega a ficar chato, mas a sua meia-hora final demora demais para passar. Como um média-metragem, seria muito mais eficaz. Nota 4,5
* 203 - 007 Contra Spectre (Spectre, 2015): para quem gosta da franquia 007, é muito difícil, praticamente impossível, entregar um exemplar insatisfatório, pois todos os filmes guardam em si elementos básicos que garantem, mais do que para qualquer outra série cinematográfica, um grau de excelência difícil de resultar em uma produção que soe desagradável para o seu público-alvo. Mesmo assim, há altos e baixos dentre as produções protagonizadas por James Bond e esse segundo filme dirigido por Sam Mendes se situa no meio termo entre os melhores (Goldfinger, O Espião Que Me Amava, Goldeneye e Skyfall, dentre tantos) e os piores (O Mundo Não É O Bastante e Quantum Of Solace) da série. Se por um lado o roteiro nunca rende o que promete (o supervilão de Christof Waltz é subaproveitado e a trama parece mais uma colcha de retalhos tricotada para dar uma liga nas cenas de ação), por outro é a produção da "era Daniel Craig" que mais abraça o entretenimento descompromissado dos "anos Roger Moore", com um bem vindo resgate de referências a títulos anteriores da franquia. Se nunca consegue manter o mesmo nível de sua impecável sequência inicial rodada na Cidade do México (um plano-sequência orquestrado com maestria por Mendes), pelo menos há no longa atributos suficientes para garantirem a diversão do público, como o excelente combate corpo a corpo entre Bond e o capanga Mr. Hinx dentro de um trem. Léa Seydoux (Azul É A Cor Mais Quente) está deslumbrante em cena e é sempre um prazer visual a parte, mas seria mesmo necessário ao protagonista outro grande amor depois da Vesper Lind de Eva Green há apenas três filmes de distância??? Apesar de seus óbvios defeitos (o anticlímax um dos mais graves), 007 Contra Spectre consegue oferecer entretenimento suficiente para que os fãs (eu, entre eles) esperemos ansiosos a volta do agente secreto para mais uma aventura que, esperemos, seja mais do que mera diversão honesta. Nota 7,5
* 204 - Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi (Scouts Guide To The Zombie Apocalypse, 2015): a premissa de misturar zumbis e escoteiros em uma comédia de terror é o tipo de ideia que soa impossível de dar errado para quem curte uma boa galhofa com subgêneros. Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi quase consegue a proeza de falhar miseravelmente em transpor o conceito para a tela, com um primeiro ato que abusa do humor simplório da geração American Pie e nunca atinge o tom de esperteza de seu primo mais bem acabado (Zumbilândia). A partir da meia-hora de projeção, no entanto, quando a trinca de protagonistas escoteiros finalmente se reúne para combater a horda de zumbis que toma conta de sua cidadezinha, o filme parece trilhar outro caminho, que é a homenagem aos filmes de camaradagem entre adolescentes da década de 80, o que melhora e muito a sua fruição. Mesmo os seus momentos mais escatológicos, daí para frente, conseguem arrancar nem que seja um sorriso do público, mesmo que o enredo e seus personagens em momento algum se desviem da obviedade das caricaturas marteladas por Hollywood ano após ano. Pelo menos é um filme de zumbi que adequadamente abraça o "gore" para fazer humor e essa opção em tornar o desmembramento de seus figurantes em diversão funciona como deveria. Nota 6
205 - Cassia Eller (Cassia Eller, 2015): não posso ser considerado um fã do trabalho de Cassia Eller, mas depois de assistir a esse impecável documentário sobre sua vida, sou capaz de me tornar um grande apreciador do trabalho da cantora. Muito além de uma biografia esquemática sobre a vida e a morte da intérprete, o que Paulo Henrique Fontenelle faz aqui é Cinema de primeira grandeza, um verdadeiro mergulho dentro da persona de sua biografada e que escapa a todo instante das amarras formais do registro documental (e é especialmente difícil imaginar uma cinebiografia ficcional que soe satisfatória depois de assistir ao longa). Fontenelle utiliza a mesma técnica impressionante que utilizou no sensacional Dossiê Jango, seu longa anterior, para dar vida a fotografias antigas, que são transformadas, com o uso da tecnologia, em quadros em movimento, a essência do Cinema per se. Essa opção em tornar mesmo os registros estáticos em cenas em constante movimento dá ao filme uma constante fluidez imagética, o que se traduz em uma obra a que se assiste com voracidade e ansiedade. Há uma preocupação inegável em nunca relegar Cassia Eller a uma figura bidimensional, o que a própria trajetória musical da intérprete parece contribuir (cada disco lançado representava um lado totalmente diverso de sua personalidade). E as sequências que retratam a maternidade e a disputa judicial pela guarda do filho após sua morte são tão tocantes que me levaram às lágrimas mesmo após o filme terminar. Um trabalho de mestre. Nota 9
206 - Exorcistas do Vaticano (The Vatican Tapes, 2015): um dia ainda vou entender o que algum produtor viu no trabalho da dupla Neveldine/Taylor, responsável por coisas como os dois Adrenalina (2006 e 2009) com Jason Statham e as porcarias Gamer (2009) e Motoqueiro Fantasma: Espírito da Vingança (2011). São cineastas que claramente não conseguem conduzir um longa do ponto de vista narrativo e se apóiam em uma edição frenética que busca esconder a fragilidade de seus roteiros e que, se funcionou medianamente no primeiro Adrenalina, fracassou vergonhosamente em todos os seus trabalhos posteriores. Pois Mark Neveldine estreia em carreira solo aqui repetindo todas as decisões equivocadas dos filmes anteriores rodados em parceria com Brian Taylor. A preocupação com o roteiro é nula e a direção parece centrar forças em picotar as cenas ao máximo para que o espectador não se dê conta da fragilidade do que está sendo encenado. Muito pior do que esconder o roteiro pobre, no entanto, é a incapacidade de Neveldine em provocar um susto sequer em um longa sobre possessão demoníaca, praticamente um recorde por si só. Uma produção em que tudo dá errado e que nem o seu desfecho fora do convencional consegue salvar. Nota 2
207 - Turbo Kid (Turbo Kid, 2015): grande diversão para quem é fã dos filmes B dos anos 80, esse Turbo Kid é uma homenagem canadense à franquia Mad Max (e a todas as ficções pós-apocalípticas que lhe sucederam e roubaram o seu conceito), mas com as perseguições substituídas por corridas de bicicletas BMX. A violência abundante é muito bem encenada e acertadamente opta por um viés trash reminiscente dos primeiros filmes de Peter Jackson (Fome Animal). A presença no elenco de Michael Ironside, vilão de Tropas Estelares, O Vingador do Futuro e Highlander 2, justifica ainda mais a diversão descerebrada proposta pelo roteiro. Quem rouba a cena, no entanto, é Laurence Laboeuf, em um papel coadjuvante tão gracioso e simpático que é difícil dissociar o filme de sua imagem. Um belo adágio a um tipo de filme que tinha como destino final a prateleira das videolocadoras e, por isso mesmo, não é mais produzido. Nota 7,5
208 - O Durão (Get Hard, 2015): é inegável que tanto Will Ferrell quanto Kevin Hart sejam comediantes talentosos e possuem boa química quando contracenam, o que certas cenas aqui escancaram. Porém, mesmo com boas passagens cômicas pinçadas aqui e ali e piadas que façam rir com facilidade, O Durão ressente-se de um roteiro minimamente coeso que dê liga a essas sequências. Tudo é muito errático, como se fosse uma sucessão de esquetes que, se possuem alguma graça vistas de forma isolada, nunca conseguem compor um todo homogêneo. Para piorar, o filme reserva um final policialesco apressado que parece ter sido escrito por um roteirista totalmente diferente (o que até faz sentido, pois são SEIS os creditados pelo texto do filme, o que é sempre um mal sinal). Nota 4,5
209 - Quarteto Fantástico (Fantastic Four, 2015): ainda não foi dessa vez que Hollywood conseguiu transpor satisfatoriamente a primeira equipe de super-herois da Marvel para as telas. Depois das tentativas frustradas anteriores, esperava-se no mínimo que o novo filme acertasse o tom dos personagens, expectativa que Josh Trank (Poder Sem Limites) encarrega-se de varrer para debaixo do tapete nos primeiros atos, que abraçam um clima de ficção científica séria que destoa das situações absurdas contidas no roteiro. Afinal de contas, é muito difícil abraçar o clima sorumbático do diretor quando se tem de aceitar o fato de uma criança criar sozinha na garagem de casa uma máquina de teletransporte interdimensional que posteriormente é exposta em uma feira de ciências de uma escola de ensino médio (e sequer ganha o prêmio do concurso!!!). Essa disparidade de tom e conteúdo praticamente sabota o longa, que tem a seu favor um elenco muito decente, formado pelos melhores atores já escalados para o papel dos personagens. No entanto, mesmo com seus defeitos, os primeiros dois atos do filme até são suportáveis e contêm em si algumas boas ideias (a homenagem a David Cronenberg ao retratar os poderes adquiridos como anomalias físicas é muito bem explorado, por exemplo) e um ritmo até certo ponto inovador (apesar da lentidão tornar o longa chato em alguns momentos). Nada que justifique, portanto, o completo desastre narrativo reservado para o seu clímax, uma sequência de ação que foi imposta pelo estúdio e, além de contrastar com o resto da produção, revela-se mal filmado, genérico e com efeitos especiais vergonhosos, o que justifica a má recepção do filme junto aos fãs. Não foi dessa vez. Nota 4
210 - Pixels (Pixels, 2015): adaptação do divertido curta-metragem dirigido por Patrick Jean em 2010, Pixels tem um conceito muito promissor (uma invasão alienígena por meio de personagens dos antigos jogos de fliperama dos anos 80), o que, por si só, rende sequências divertidas que se revelam simpáticas a qualquer marmanjo que jogou os arcades há três décadas atrás. O que renderia uma comédia de aventura nos moldes de Os Caça-Fantasmas, no entanto, é sabotado pela escalação do elenco, que conta como protagonista o sempre fraco Adam Sandler. É por causa de Sandler que, dentro da proposta inicial de Pixels, foi injetada uma comédia execrável como quase todas as protagonizadas pelo comediante, o que se sobrepõe às boas ideias preservadas no projeto aqui e ali. Se as sequências da invasão dos jogos eletrônicos à Terra são divertidas, no meio do caminho é preciso aturar toda a sorte de piadinhas infames de Sandler e cia. com flatulências, vômitos e o abuso de um humor que, distante do politicamente incorreto, soa no máximo ofensivo. A impressão é de que o filme foi adaptado para o tipo de produção que fez a fama de seu protagonista, o que nunca é um bom sinal para quem tem mais de 10 anos de idade. Uma pena, já que o nerd personificado por Peter Dinklage é bem divertido, ao passo que (valha-me Deus) até o personagem de Kevin James, parceiro habitual de Sandler, ao menos parece interessante em sua concepção de presidente gente-como-a-gente. Nota 4,5
211 - The Ugly (The Ugly, 1997): curiosa produção neozelandesa da década de 90 que compensa a traminha batida e o ritmo por vezes truncado com uma direção estilosa que utiliza muito bem as transições da edição para conferir ao filme uma atmosfera estabilizada sempre no limiar entre a realidade e a imaginação. Atmosférico, soturno e cheio de simbolismos (o sangue negro, todo o design da clínica psiquiátrica e de seus personagens), é essa uma roupagem inovadora para a época que torna o longa um filme a ser descoberto para os fãs do gênero. Nota 5,5
* 212 - Macbeth: Ambição e Guerra (Macbeth, 2015): uma das melhores adaptações para o cinema da obra de Shakespeare em muito tempo, esse Macbeth esbanja som e fúria (um dos trechos mais célebres da peça do bardo). Unindo um visual ao mesmo tempo cru, o que remete aos modernos filmes de guerra e contemporiza adequadamente a trama, e poético na forma impecável com que trabalha as cores de maneira simbólica, é uma produção que transborda inovação mesmo apoiando-se em um texto com séculos de idade. O design de produção, por si só, já mereceria todos os elogios possíveis só pelas impecáveis (e inteligentíssimas) cenas que abrem e encerram o longa. Além do mais, é um filme que ousa dar à personagem de Lady Macbeth, geralmente retratada com ares de pura vilania, outras tantas camadas, o que empresta à produção um muito bem-vindo e contemporãneo viés feminista. Não é nem preciso dizer que tanto Michael Fassbender quanto Marion Cotillard estão não menos do que brilhantes em cena. A opção em preservar o texto original, com o inglês arcaico que demanda atenção maior do que o normal, talvez soe incômodo para o grande público, mas há predicados suficientes para tornar o espetáculo memorável. Nota 8,5
* 213 - Aliança do Crime (Black Mass, 2015): eficiente thriller policial ambientado no submundo do crime organizado de Boston, Aliança do Crime é daqueles filmes "by the book", ou seja, não ousam além do básico do gênero, mas cumprem as regras estabelecidas de forma plenamente efetiva. A trama, baseada em impressionantes fatos reais, lembra muito (até demais) a do clássico Os Bons Companheiros, mas sem o virtuosismo estético empregado por Martin Scorsese naquele filmaço. É uma produção cujo desenvolvimento desce redondinho, amparado por um elenco estelar em que todos estão bem em cena, mas com destaque para a sensacional performance de Johnny Depp, que cria aqui um personagem simultaneamente amendrontador e humano (é, de longe, a melhor atuação do astro na última década e a razão de existir do próprio longa). Até mesmo a discutível maquiagem aplicada sobre o rosto de Depp ganha significado ao se considerar a persona do personagem real retratado. O roteiro não vai além do padrão em se tratando do subgênero dos filmes de gângster, mas o que se vê na tela é um trabalho bem conduzido e de fácil fruição. Nota 7
214 - Bata Antes de Entrar (Knock Knock, 2015): híbrido de thriller com comédia involuntária, esse ensaio sobre o desejo e a culpa poderia resultar em um registro irônico e perspicaz sobre a hipocrisia que se esconde por trás das convenções judaico-cristãs que nos foram ensinadas em relação à preservação da família enquanto instituição imaculada. O que o picareta Eli Roth (O Albergue) faz aqui, no entanto, é um arremedo de filme que apenas reitera os mais desprezíveis chavões da culpa católica, limando qualquer viés feminista que o longa poderia abraçar. Bata Antes de Entrar nada mais é do que uma sucessão chata de clichês que lançam mão do torture porn que o diretor tanto gosta para chegar literalmente a lugar algum. Não há suspense, não há empatia com os persongens e Keanu Reeves nunca esteve tão mal (e, considerando o padrão Keanu Reeves de interpretação, isso é alarmante). Nem a cena em que as psicopatas gostosonas (uma delas, esposa do cineasta) fazem um ménage a trois com o protagonista consegue excitar. Horrível. Nota 2
215 - O Doador de Memórias (The Giver, 2014): adaptação do primeiro livro de uma série de bestsellers voltados para o público jovem, esse Doador de Memórias surpreende por algumas ideias inovadoras e muitas referências a autores clássicos da ficção, principalmente Ray Bradbury. Esteticamente impecável, com um design de produção e fotografia belíssimas, que usam muito bem o recurso de intercalar o preto e branco com as cores, é um filme cuja estrutura visual e base literária prometiam uma franquia a se destacar de seus pares. O problema é que o roteiro, ao invés de explorar o diferencial da obra, opta por entregar mais do mesmo, com os mesmos chavões do subgênero, como o triângulo amoroso adolescente insípido e personagens bidimensionais, desperdiçando por tabela dois medalhões no elenco: Meryl Streep quase não tem razão para existir no filme, ao passo que Jeff Bridges repete pela enésima vez o clichê do velho sábio, mas desleixado, que balbucia frases como se estivesse eternamente mascando tabaco. O final é totalmente anticlimático e dependente de uma continuação que o fracasso de bilheteria garante que nunca virá. Nota 4,5
* 216 - A Visita (The Visit, 2015): A Visita é um filme que surpreende não tanto pelo produto final, mas pelo que ele significa para a carreira de seu diretor. Afinal de contas, quem diria que M. Night Shyamalan, depois de passar mais de uma década entregando porcarias indefensáveis (Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar, Depois da Terra) que praticamente enterraram seu currículo outrora (beeem outrora) promissor conseguisse, com uma produção de baixíssimo orçamento, se reinventar e lançar um filme ao mesmo tempo divertidíssimo e sinistro? Não que A Visita seja lá graaaande coisa, mas é um atestado de que o cineasta ainda guarda truques na manga e talento suficiente para arquitetar cenas de susto muito eficientes, além de uma narrativa redondinha, que dá a todos os personagens um arco dramático honesto durante a projeção. E, maior das surpresas, Shyamalan demonstra aqui um bom humor autoparódico que se destaca. A Visita, longe de se levar demasiadamente a sério, tira sarro com as convenções do gênero sem soar um pastiche meramente comercial. Parece uma genuína homenagem ao "terrir" (terror + comédia) tão popularizado nos anos 80, mas que caiu em desuso nas décadas subsequentes, mesmo que o cineasta utilize uma ferramenta tão batida como a dos "found footage" (filmes de imagens encontradas, o que é de certa forma também subvertido aqui). Até a reviravolta principal, que pode ser telegrafada bem antes, funciona de forma orgânica. Nada que vá mudar a vida de ninguém, mas é uma produção que diverte e assusta na medida certa, muito favorecida pela excelente dupla de adolescentes central (principalmente Ed Oxenbould, de Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso, que rouba toda e qualquer cena em que aparece). Um bom retorno à forma de Shyamalan. Tomara que, da próxima vez, seja também memorável. Nota 7,5
217 - El Infierno (El Infierno, 2010): produção mexicana muitíssimo bem produzida que conta uma história até certo ponto recorrente de ascensão e queda de um cidadão comum na criminalidade, aqui situada no mundo dos cartéis de drogas. Tudo segue a narrativa clássica do gênero, mas o bom humor adotado funciona maravilhosamente bem em contraste com a violência inerente a esse tipo de produção. Há bons achados e a metragem excessiva (mais de duas horas de duração) nunca incomoda. Vale a pena. Nota 7
218 - A Viatura (Cop Car, 2015): sucesso no Festival de Sundance de 2015, essa pequena produção de suspense serviu de cartão de visitas para o diretor Jon Watts ganhar da Marvel o timão do próximo filme do Homem-Aranha. E, de certa forma, a honraria é justa. Com orçamento baixíssimo, é um thriller que une o clima de história de amadurecimento de Conta Comigo, tratando seus dois protagonistas de 10 anos como as crianças que realmente são, com a tensão de títulos como A Morte Pede Carona. Kevin Bacon, também produtor do longa, está muito bem como o xerife vilão que persegue os moleques. É o típico caso de produção "slow burn", que vai lentamente sendo construída até o inevitável (e, no caso, sangrento), clímax. Sem nunca ofender a inteligência do espectador, é daqueles filmes que prendem a atenção desde o primeiro instante e não largam mais até a excelente (e incomum) cena final. Nota 8
219 - Enquanto Somos Jovens (While We´re Young, 2014): desde os anos 90, Noah Baumbach se firmou como um dos mais sagazes roteiristas e diretores independentes americanos, retratando como ninguém toda uma uma geração específica que viveu a adolescência entre as décadas de 80/90. São dele Tempo de Decisão, A Lula e a Baleia, Margot e o Casamento e Frances Ha, por exemplo. Goste ou não do cineasta (e eu adoro), é inegável como Baumbach consegue conceber tramas que registram personagens tão comuns (e, algumas vezes, odiosos ao mesmo tempo, como em O Solteirão, com Ben Stiller) de forma tão inovadora e profunda. Em Enquanto Somos Jovens, talvez seu trabalho mais autobiográfico, o foco é o embate geracional entre os agora quarentões, que se adaptam às inovações tecnológicas, mas ainda mantêm um pé nas tradições analógicas, e a nova geração, que parece se apegar aos costumes hoje ultrapassados como meio de dar maior estofo cultural e intelectual a vidas que, no fim das contas, não diferem muito daquelas de seus pais. Toda a discussão resultante desse embate entre o velho e o novo é muito bem conduzida, principalmente com um quadrilátero de protagonistas em estado de graça (Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver e Amanda Seyfried estão ótimos), além de um coadjuvante de luxo na pele do veterano Charles Grodin). Inteligente, tocante, engraçado e reflexivo, é um dos grandes trabalhos da filmografia de um cineasta que parece ficar ainda melhor com o passar dos anos. Nota 8,5
* 220 - No Coração do Mar (In The Heart Of The Sea, 2015, em 3D): aventurão à moda antiga, essa nova dobradinha entre o diretor Ron Howard e o ator Chris Hemsworth não consegue equacionar o roteiro esperto com a condução irrepreensível vistos na colaboração anterior de ambos (Rush: No Limite da Emoção). Baseado no livro que registrou o caso real que inspirou Helmann Mellville a escrever Moby Dick, é uma jornada náutica com visual bacana e ritmo adequado, mas que nunca empolga como deveria. O 3D é horroroso, pois o filme não foi pensado para o formato (muitas sequências são noturnas e, com os óculos tridimensionais, as imagens são totalmente sabotadas), enquanto o excessivo uso de efeitos digitais afasta o espectador de cenas que, se fossem feitas à moda antida, com trucagens mecânicas, poderiam resultar em momentos de puro deleite cinematográfico. Hemsworth faz aqui uma variação que não foge muito de seu registro como Thor, apesar de ser um protagonista adequado. Pena que a perda de peso do ator, muito noticiada pela internet, não seja aproveitada de forma plena no filme (se piscar, perdeu a cena, o que de certa forma torna o esforço do astro desnecessário). Mesmo assim, é uma boa produção que conta com elenco bem selecionado e cenas legais, todas elas envolvendo a baleia digital que serve de mote para o filme. Diverte, mas nem de longe o resultado é o épico acachapante almejado pelos realizadores. Nota 5,5
* 221 - Jogos Vorazes: A Esperança - O Final (The Hunger Games: Mockingjay - Part 2, 2015): prejudicado pela estapafúrdia, mas rentável para o estúdio, opção comercial em dividir o último livro da série em dois longas, esse desfecho de uma das franquias adolescentes mais interessantes a aportar pelas telas em muitos anos pelo menos resulta muito, mas muito superior, ao fraco capítulo anterior visto ano passado, que limitava-se a entregar um trailer de duas horas de um clímax que nunca se concretizava. Esse último capítulo, ao menos, contém cenas de ação empolgantes e dá, para o bem ou para o mal, um desfecho para a jornada de seus protagonistas. A direção de arte é muito boa, emulando o cenário dos filmes de guerra modernos, ao passo que a ideia de reintroduzir a ideia dos "jogos" em cenário urbano é muito esperta e empresta à trama originalidade e urgência. Há reiterações incômodas, como a hesitação da protagonista Katniss em abraçar sua condição de símbolo da revolução, situação que já havia sido esgotada no filme anterior, além de escancarar como o triângulo amoroso original sempre foi o ponto mais fraco da franquia. Mesmo assim, a personagem central é boa demais e a crítica política (lembrem-se que o "mal" é chamado de "Capital" desde o primeiro filme) são muito importantes para o cenário médio do cinema contemporâneo. Pena que os cinco minutos finais contenham um desfecho que, além de tirar força da jornada da protagonista e da própria premissa dos livros, ainda abraça um tipo de "the end" mais afeito a produções com temática muito mais bobinha do que a desenvolvida até então. Mesmo assim, é um entretenimento que não ofende a inteligência de ninguém. Fora que é a última oportunidade de ver Phillip Seymour Hoffmann na telona em uma produção inédita, o que por si só torna a experiência memorável. Nota 7,5
* 222 - O Presente (The Gift, 2015): o que parece ser um thriller reminiscente daqueles dos anos 90 (Atração Fatal, Mulher Solteira Procura, Morando Com O Perigo), nas mãos do diretor/roteirista/ator Joel Edgerton (Aliança do Crime, Guerreiro) se transforma em um suspense cujas reviravoltas desafiam as convenções do gênero sem nunca abandoná-las completamente. O trabalho de direção, que rende tomadas surpreendentes para um estreante na direção de longas, além de sustos muito bem arquitetados, torna O Presente uma daquelas surpresas agradáveis que, se não revolucionam o subgênero em que se insere, pelo menos entrega um produto final plenamente eficaz. Além de Edgerton, que cria um personagem que oscila entre a empatia e o medo, Jason Bateman cria aqui também um tipo muito diferente de tudo o que já fez em sua carreira. O desfecho é cirúrgico em sua aptidão em driblar o convencional sem abdicar do impacto. Uma boa estreia na direção de Joel Edgerton, que já há tempos se destacava em papeis coadjuvantes. Nota 7,5
* 223 - Olhos da Justiça (Secret In Their Eyes, 2015): não existe nenhuma justificativa lógica que me convença que uma refilmagem americana do sensacional O Segredo dos Seus Olhos fosse necessária, principalmente porque o original (e impecável) filme argentino ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro há apenas cinco anos. Por isso mesmo, esse remake já nasce datado e sua própria existência é muitíssimo questionável. Mesmo as boas inovações propostas pelo roteiro (a ambientação inicial pós-11 de Setembro, por exemplo) não levam a lugar algum. Pior: a opção em tratar o crime central como algo pessoal para o protagonista Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão, Perdido em Marte, Z For Zachariah) trai o próprio conceito do longa original, que versava sobre a obsessão (no caso, a do personagem de Ricardo Darín em solucionar um caso que deixara em aberto durante sua carreira como investigador policial e que possuía relação direta com o período da ditadura argentina). Assim, por mais que a nova roupagem americana se esforce (e é bem verdade que há bons achados nesse novo filme, como a bem conduzida tensão sexual entre dois dos personagens principais), nunca chega a amarrar os cadarços do original. A trinca de atores central está muito bem (além do sempre ótimo Ejiofor, há uma Julia Roberts totalmente desglamourizada e uma Nicole Kidman linda e muito muito melhor do que esteve no recente superior à de Grace de Mônaco, por exemplo), mas o filme nunca subverte suficientemente o filme que lhe serve de base para surpreender o público. Para quem não assistiu à produção argentina, funciona que é uma maravilha, mas para quem já viu o filme de Campanella (e quem não viu deveria urgentemente assistir), é somente uma revisão falada em inglês. O mais emblemático é que, no lugar da cena mais célebre daquela produção (o plano-sequência durante uma partida de futebol), o que vemos aqui é uma reles passagem entrecortada durante um jogo de beisebol. Seria um bom filme, mas só se não existisse um muuuuuuuuito superior que lhe serviu de base para reprodução. Nota 4,5
224 - The Theatre Bizarre (The Theatre Bizarre, 2011): como quase toda antologia de contos de terror, esse aqui é irregular na qualidade de suas historinhas. O que destaca ainda mais essa variação de eficácia entre os contos é a absoluta ausência de unidade temática. O resultado final parece mais um amontoado de curtas-metragens sem um único elemento que lhes dê liga. E o que é pior: entremeados por um horroroso entreato que supostamente serviria de transição entre eles. Surpreende a ruindade da história comandada pelo sulafricano Richard Stanley, que na transição entre os anos 80 e 90 foi apontado como cineasta promissor com Hardware - O Destruidor do Futuro. Pelo menos os episódios dirigidos por Tom Savini (conhecido pela maquiagem dos filmes de George Romero e responsável pelo bom remake de A Noite dos Mortos Vivos de 1990) e Douglas Buck são belas surpresas. Nota 4,5
225 - Hitman: Agente 47 (Hitman: Agent 47, 2015): nova tentativa de adaptar a franquia de games para o cinema, na comparação consegue a proeza de deixar o já fraco longa de 2007 um filme até agradável. Protagonizada por um ator sem qualquer carisma (Rupert Friend, do seriado Homeland), consegue desperdiçar o vilão do sempre bom Zachary Quinto em uma trama que é uma verdadeira colcha de retalhos de todos os clichês mais irritantes de produções de ação genéricas. O pior é distanciar-se de tudo o que fez a fama e o sucesso dos jogos de videogame em que se baseia: enquanto o personagem original e suas histórias investiam em missões cuja eficácia dependia muito mais da habilidade com que os jogadores conseguiam abater os inimigos de forma sorrateira, aqui o protagonista explode e atira em qualquer coisa que passe pela frente. A falta de sutileza é tanta que o personagem, seu interesse amoroso (a belíssima Hannah Ware) e o vilão ganham super-poderes que parecem saídos de uma produção da Marvel. O ó. Nota 2,5
* 226 - O Clã (El Clan, 2015): interessantíssimo thriler argentino que parte de um caso real famoso na crônica policial do país e consegue equilibrar muito bem o suspense com o drama político que escancara os desmandos ocorridos durante o período da ditadura militar. Conta com uma atuação impressionante de Guillermo Francella (O Segredo dos Seus Olhos) no papel principal, uma composição que investe em gestos e entonação de voz contidas para dar forma a um sociopata como há muito não se via nas telas. O diretor Pablo Trapero, dos ótimos Abutres e Elefante Branco, parece comedido em realizar os seus já famosos planos-sequência, mas tudo não passa de um artifício genial do diretor para pegar o espectador desprevenido: a tomada única que fecha o longa com chave de ouro é uma das cenas mais impactantes dos últimos anos. Um grande filme em temática e execução. Nota 8,5
227 - A Very Murray Christmas (A Very Murray Christmas, 2015): especial de Natal dirigido por Sofia Coppola para a Netflix, não passa de uma grande sucessão de números musicais entremeados por um fiapo de roteiro protagonizado por Bill Murray. Há cenas engraçadinhas aqui e ali e as participações especiais variam entre o inspirado (Michael Cera, Rashida Jones e Maya Rudolph) e o protocolar (Miley Cyrus, Amy Poehler e George Clooney). Algumas das apresentações musicais são bem legais, mas era de se esperar mais do reencontro entre a diretora e o protagonista de Encontros E Desencontros. Nota 5
* 228 - Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, em IMAX 3D): talvez o filme que gerou mais expectativas por uma legião de fãs nas últimas duas décadas (o que geralmente é péssimo sinal para a recepção pós-lançamento), essa continuação direta de O Retorno de Jedi pelas mãos habilidosas de J. J. Abrams, que já reinventara outra franquia adorada por seguidores fanáticos (Jornada Nas Estrelas), é justamente o espetáculo cinematográfico que todos os órfãos da trilogia clássica de Star Wars mereciam. A equivocada trilogia prequel comandada por George Lucas na década passada, a partir desse finalzinho de 2015, conseguiu descer alguns degraus na memória dos fãs. Afinal, tudo o que deu errado na tentativa frustrada de Lucas em reviver a magia dos longas da década de 80 (o excesso de efeitos digitais, o humor infantil, a trama novelesca, os personagens nada memoráveis defendidos por um elenco cheio de atores mal escalados) é evitado por Abrams aqui. O diretor consegue ao mesmo tempo respeitar e reinventar a franquia para as novas gerações, apresentando um punhado de novos e adoráveis protagonistas (Rey, Finn, Poe Dameron, BB8) e resgatando aqueles de quem todo o cinéfilo que cresceu nos anos 80 sentia falta (e que sensação boa é perceber que a dobradinha entre Han Solo e Chewbacca permanece tão bem azeitada quanto a última vez em que os vimos juntos na tela). Mesmo com a reiteração excessiva da estrutura de Uma Nova Esperança (de longe, o maior e um dos únicos pecados do filme), o roteiro escrito por Lawrence Kasdan (responsável pelo texto de Os Caçadores da Arca Perdida, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi), Michael Arndt (Toy Story 3) e pelo próprio Abrams é eficaz em equilibrar em cena os velhos e os novos protagonistas, dando espaço para que todo o elenco tenha oportunidade de brilhar em cena. É a mão de J. J. Abrams, no entanto, que permeia todo o longa. E é fácil perceber como sua veneração pela trilogia original transparece na tela. Da opção pelos efeitos especiais práticos e de maquiagem em detrimento dos digitais até o resgate do mesmíssimo clima de encantamento e fantasia dos filmes originais, O Despertar da Força é uma superprodução feita por e para fãs. Destaque-se também a ousadia na aposta em finalmente dar o protagonismo de uma superprodução a minorias que nunca se vêem adequadamente representadas por Hollywood: uma mulher (Daisy Ridley, a melhor descoberta dos últimos anos, que rouba a cena e nos apaixona instantaneamente por sua personagem, que foge do estereótipo martelado pelo cinema americano), um negro (o ótimo John Boyega, de Ataque Ao Prédio) e um latino (o sempre eficiente Oscar Isaac). Para completar, o novo vilão (Adam Driver, do seriado Girls) ganha um arco dramático genial que transforma o personagem ao longo da projeção e o estabelece, ao final do filme, como uma promessa de antagonista muito promissor para os próximos capítulos da saga ("aquela" cena principal do filme é emblemática para essa transição e conduzida com maestria por Abrams). A última cena é tão bela quanto evocativa do que essa retomada representa para um fã de Guerra Nas Estrelas: a sensação de reencontro juntamente com a de término e recomeço de ciclos. E uma puta vontade de rever o filme e automaticamente se teletransportar para 2017, quando chega às telas o episódio 8. Nota 9
229 - Horas de Desespero (No Escape, 2015): é interessante observar o esforço de Owen Wilson ao tentar uma espécie de reinvenção em sua carreira em um papel dramático. Esse thriller de sobrevivência tem algumas cenas eficientes e há um esforço visível dos envolvidos em entregar um suspense de qualidade. O problema é que o filme apenas reitera a visão equivocada e preconceituosa do cinema americano em relação aos países do terceiro mundo. O viés imperialista do roteiro repleto de clichês babacas acaba por soterrar quaisquer boas intenções dos realizadores. Nota 4
230 - Natal Negro (Black Christmas, 2006): refilmagem de Noite do Terror, de 1974 (vide número "157" acima) que, se não opta por apenas reencenar o original quadro a quadro, erro comum reiteradamente cometido pelos remakes, cai em outro tipo de armadilha. Ao tentar modificar demais o roteiro do filme que lhe inspira, acaba por esvaziar o novo longa de tudo o que fazia de Noite do Terror um filme além da média. Natal Negro opta pela sempre equivocada opção em tentar explicar o que o original abordava de maneira subliminar, em especial a motivação e origem de seu serial killer. O resultado, como era de se esperar, é catastrófico. O remake é um terrorzinho padronizado e sem qualquer identidade, previsível em sua execução e totalmente desprovido do clima de tensão e do humor que fizeram a fama do original. Nota 2
* 231 - Pegando Fogo (Burnt, 2015): legítimo representante cinematográfico da moda do "food porn" popularizada por redes sociais como Instagram, pega carona no sucesso dos reality shows televisivos e seus chefs alçados à condição de popstars (principalmente Gordon Ramsay, que faz as vezes de consultor do filme). Se fosse uma produção independente, teria potencial para almejar voos maiores. O problema é que, por trás da boa premissa e do elenco excelente, existe uma preocupação comercial evidente do estúdio que lhe bancou. É um filme que flui que é uma maravilha e conta uma história que, se não chega a sair do lugar-comum, ao menos é situada em um microcosmo intrigante. Tem um bom ritmo e seria um longa bem acima da média caso não cedesse, em seus últimos minutos, aos clichês hollywoodianos dos filmes de superação americanos. Uma opção nitidamente mercadológica que destoa da história contada até ali e impede que a jornada de seu protagonista ganhe o arco dramático que merecia. Nota 5
* 232 - As Sufragistas (Suffragette, 2015): boa produção britânica que aborda um tema importante e surpreendentemente atual em tempos em que o conservadorismo ganha uma inoportuna sobrevida em nossa sociedade. O roteiro dá às mulheres que lutaram pelo sufrágio universal na Inglaterra um viés revolucionário que é muito bem defendido pelo elenco, em especial Carey Mulligan (ótima), Helena Bonham Carter e, principalmente, Anne-Marie Duff (do excelente Em Nome de Deus), que merece todos os prêmios de atriz coadjuvante a que vier a ser indicada. O problema é que a direção de Sarah Gavron pesa a mão no ritmo adotado, o que deixa a trama soar mais cansativa do que deveria. O grande trunfo do longa, porém, é conseguir encerrar de maneira exemplar: com uma cena impactante e uma mensagem pré-créditos que, além de nunca soar piegas, ainda reafirma a urgência de mais produções com temática parecida. Um desfecho que eleva o longa acima da média. Nota 7
233 - Hacker (Blackhat, 2015): sempre considerei Michael Mann um cineasta superestimado, apesar de concordar que alguns de seus longas (Profissão: Ladrão, Fogo Contra Fogo, Colateral) sejam muitíssimo eficientes. Hacker foi um fracasso comercial tão grande nos EUA que o estúdio achou por bem cancelar o seu lançamento nos cinemas em diversos mercados, dentre eles o Brasil. Acho injusta a má recepção e absurdo que não tenha ganhado oportunidade nas telas brasileiras. É um policial correto, com um ritmo um tanto lento (aliás, característica de toda a cinematografia de Mann), mas que, no final das contas, nunca chega a truncar a sua fruição. Pelo contrário: há boas cenas de ação e um protagonista esforçado (Chris Hemsworth, que fora dos filmes da Marvel raramente teve um sucesso comercial com seu nome estampado no cartaz), além de um elenco multinacional bem interessante. Não chega a desviar-se dos clichês dos filmes de ação como deveria, mas entrega um resultado final que é de fácil identificação, o que torna ainda mais surpreendente o boicote que sofreu do público amrericano e de seus distribuidores. Nota 6
234 - The Hive (The Hive, 2015): híbrido de terror e ficção científica, essa produção independente até que se esforça para entregar mais do que uma mera repetição das incontáveis produções que servem de inspiração. Os efeitos são decentes e as atuações não comprometem, mas o problema desse "Amnésia" voltado para os fãs de horror é que poucas das ideias lançadas durante o longa são satisfatoriamente desenvolvidas durante a projeção, o que deixa uma sensação de que a brincadeira poderia ter ido muito mais longe do que efetivamente foi. Nota 4,5
235 - Victoria (Victoria, 2015): intrigante longa alemão que surpreende ao adotar a estética de um longo plano-sequência de mais de duas horas para contar uma história policialesca ambientada em plena região central de Berlim. O diretor Sebastian Schipper demonstra inteligência ao desenvolver a história que pretende contar sem qualquer pressa e contando com a capacidade de improvisação do ótimo elenco (destaque para os protagonistas Laia Costa e Frederick Lau), o que confere à produção, em um primeiro momento, uma atmosfera de realismo que prende a atenção do espectador antes da trama tomar um rumo inesperado. As cenas que constroem a intimidade crescente desenvolvida entre os protagonistas são muito boas, o que amplifica o impacto dos acontecimentos reservados ao terceiro ato da produção. Sem falar que, tecnicamente, o filme é irrepreensível: o plano-sequência pensado pelo diretor envolve dezenas de atores e figurantes, idas e vindas por vários cenários e cenas cuja coreografia deve ter sido um pesadelo para os envolvidos. Um belo trabalho. Nota 8
236 - Best Of Enemies (Best Of Enemies, 2015): em tempos em que o debate político acabou reduzido a uma gritaria histérica entre dois polos que equivocadamente se vêem como mocinhos de bangue bangue lutando contra índios sanguinários (e imaginários), esse documentário é um tapa de luva de boxe nas verdades incontestáveis vociferadas por cada lado em nossa sociedade. A série de debates entre o liberal Gore Vidal e o reacionário William F. Buckley durante as primárias da eleição americana de 1968 resgata uma época em que o discurso político era encenado por indivíduos com bagagem intelectual acima da média e que, independentemente do lado da trincheira em que se posicionavam, tinham o cuidado em fundamentar seus argumentos com estofo histórico e retórico capaz de elevar a discussão muito além do enfrentamento binário a que se assiste diariamente por meio das modernas redes sociais. Vidal e Buckley eram oradores fascinantes e seu ódio mútuo resulta em um filme irrepreensível, com momentos de embate tão deliciosos quanto elucidativos em relação a seus argumentos. Mais do que um documento de época, Best Of Enemies escancara como involuimos enquanto sociedade. O mundo moderno precisaria de incontáveis Vidals e Buckleys para que a fé na humanidade pudesse ser restabelecida. Excelente. Nota 9
237 - Os Desconectados (Disconnect, 2012): dirigido por Henry Alex Rubin, do ótimo documentário Murderball, é um filme-coral que busca registrar como a tecnologia, mais do que aproximar, acabou afastando as pessoas no mundo moderno. Seria intrigante enquanto conceito, mas o roteiro é tão simplório e recheado de clichês melodramáticos que o produto final acaba resultando apenas em um sub-Crash: No Limite sem qualquer inspiração. Pior do que isso: a sua absoluta falta de consistência acaba por desperdiçar o ótimo elenco em um filme que, por trás de suas boas intenções, acaba soando popularesco e vergonhoso em alguns momentos. Nota 2,5
238 - Estranha Obsessão (La Femme du Vème, 2011): o polonês Pawel Pawilikowski, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015 por Ida, entrega aqui um drama com toques de thriller cuja ambientação em Paris e suas ruelas claustrofóbicas é certeira em sua pretensão em impregnar o longa com uma atmosfera kafkiana de opressão e aprisionamento. O filme começa muito bem e o protagonista interpretado por Ethan Hawke é interessante o suficiente para que seu destino prenda a atenção do espectador, principalmente a partir do momento em que entra em cena a intrigante personagem de Kristin Scott-Thomas (excelente). O problema é que o diretor carrega a produção com tantos simbolismos e tomadas que flertam com o abstrato que o resultado final soa insatisfatório por não desenvolver como deveria todas as ideias lançadas durante o desenvolvimento da história. A sensação final é de se ter recebido um cheque sem fundos. Nota 4,5
* 239 - Divertida Mente (Inside Out, 2015): a volta da Pixar à sua melhor forma. Muito mais do que uma animação infantil, é uma produção ambiciosa que resgata da psicanálise os conceitos para conceber o mundo fantástico que o roteiro (irrepreensível, para dizer o mínimo) criou para dar vida às emoções que regem o comportamento da pré-adolescente Riley. Inventivo, com um visual de cair o queixo e repleto de personagens adoráveis (a Tristeza, dublada no original por Phillys Smith, do seriado The Office, é um achado), Divertida Mente é o longa que revive toda a mágica e o encantamento que a Pixar, por mais de uma década, insistia em reproduzir com resultados impecáveis na tela até ser adquirida pela Disney, o que imprimiu aos filmes com o seu selo uma queda de qualidade inegável (Carros 2, Valente, Universidade Monstro). Muito mais do que um mero entretenimento infanto-juvenil, Divertida Mente introduz, no arco dramático de seus protagonistas, uma mensagem ousada e inteligente: a de que a tristeza, em doses adequadas, é fundamental em nossas vidas. E, de quebra, é um filme que consegue emocionar até o mais durão dos espectadores (o diretor, vale lembrar, é o mesmo de Up - Altas Aventuras, que já arrancara lágrimas instantâneas de todo mundo). Afinal de contas, seu cerne envolve algo por qual todos nós passamos: as agruras do amadurecimento e a dureza que é abandonar a fase mais feliz de nossas vidas. Um assunto tocante por si só e que é encenado com maturidade e delicadeza aqui. Nota 9
**********************The End******************************************